A História não é linear; é intermitente, faz-se de fluxos e de refluxos, num cerzir feito de tantos condicionamentos e constrangimentos, num ziguezaguear que não consegue abafar, e muito menos travar, a edificação de uma sociedade outra.
E é a consciência do amanhã que impede o sossego da acomodação ou da resignação a uma etapa histórica determinada. Incita à crítica e à não instalação do presente. Provoca, sim, o ironizar a caducidade das circunstâncias pretensamente “absolutas”.
O olhar posto no futuro não permite o optimismo fácil, nem alimenta o ópio de uma passividade derrotista ou qualquer tentativa de iludir as realidades. Mas, as madrugadas felizes, os amanhãs, geram a esperança como motor da História.
Tomar partido pelo futuro gera uma inquietude que não pode ser apaziguada por nada, por nenhuma adversidade ou contrariedade. Dentro das complexidades da História, ou até na obscuridade do instante vivido, as razões da esperança responsabilizam-nos pelo que ainda está por fazer, geram o dever pelo que ainda não é, pelo que ainda não foi possível realizar. Nesta experiência antropológica, a condição do ser humano é de impulso, desejo, saudade do futuro, do ainda-não-determinado, que funda, como princípio dinâmico, todas as possibilidades de futuro do Mundo e da Humanidade.
Assim, o amanhã que cantamos, ao mesmo tempo que nos faz aguentar longas vigílias em expectativa, lança-nos na aventura que é criar e transformar a vida e a História.
Edgar Silva