Quando a morte surpreende a vida tudo aquilo que as une, desde a génese, desvanece-se num sombrio vazio de dor, a imortalidade murcha e o confronto com um fim agarra os pés à terra e a alma ao infinito. As respostas adormecem e a inquietação reinicia o eterno ciclo do sentido da existência. Da ciência à religião o fio condutor é a dúvida ainda que, por necessidade de paz, as certezas possam aliviar a inquietação. A verdade é que na nossa civilização são poucos os que se tranquilizam com o fim e o aceitam como a consequência natural do tempo de vida. Apesar dos factos a imortalidade é um sonho, um pensamento mágico, uma impossibilidade a concretizar, a descontinuidade de um percurso a prazo, entrecruzado nas histórias e nas ligações de vida. Quando se perde alguém que se gosta e com quem se gostaria de continuar perto o vazio é mais profundo do que a violenta dor da perda, é a certeza dos limites, da interrupção, do não poder da decisão e do controle do tempo. É possível aceitar a distância física, mesmo que a tristeza espreite entre as esquinas, porque a distância não representa um fim, apenas uma descontinuidade; é possível aceitar uma interrupção, ainda que definitiva, porque, apesar dos constrangimentos, interromper não pressupõe acabar, altera apenas a direção do preestabelecido, é uma pausa, uma possibilidade de mudança, até mesmo de evolução. Morrer é terminar o único ciclo impossível de dominar, o da vida própria. Uma sociedade que cresce a acumular poder e domínio paralisa quando subentende que no topo de tais valores o fim está de braços abertos a aguardar a humildade da existência. Viver é um percurso, um acumular de histórias, uma partilha de experiências, de sonhos, uma possibilidade de encontros e desencontros, um caminho para a morte que pode tornar-se mágica se a concebermos como mais uma etapa de ligação, ao desconhecido, ao fantástico mundo das incertezas, o desafio sem resposta de volta, a eterna dúvida. E se na dor da perda o medo se ligar à aceitação a ausência trará de volta os milhares de pontos de contacto que, ligados pela memória, redesenharão em nós os contornos do que sempre será imortal.

Manuela Parente Psicóloga