Um dia nascemos e, nascemos com duas certezas. Só duas! Já lá vamos. Durante a vida, temos a certeza de ter muitas certezas. De certeza absoluta que temos certezas, que se vão esfumando à medida que a vida se encarrega de alterar os pressupostos que levam às certezas absolutas, tornando-as em relativas ou, até, em não certezas, ou incertezas se quisermos. A vida, mestra e professora, com a certeza do tempo que passa, ensina-nos a duvidar das certezas com que vamos levando as nossas decisões e a encará-las com a dúvida que só a idade e a experiência deixa entrever por entre os pingos das chuvas de certezas que se vão abatendo sobre nós nas várias fases da passagem por este mundo. Não sei se outros haverá, ou se outras vidas haverão, há quem diga que sim, há que diga que não – incertezas, portanto. Se há, ou não, outras vidas, isso são contas de outros rosários, cinjamo-nos a esta que temos a certeza de ter enquanto não chega a hora de a deixarmos de ter. E esta é uma vida também de promessas. Promessas de uma vida melhor, promessas de felicidade se formos por aqui e não por ali, com outros a assegurarem que ir por ali é bem melhor do que ir por aqui, deixando no ar a incerteza do aqui e do ali, quando já nos tínhamos decidido que, talvez nem por aqui nem por ali, seguiríamos um outro rumo. Para seguirmos um determinado rumo, por aqui, por ali ou um qualquer outro, há sempre as balizas que as sociedades em que nos inserimos vão criando por forma a que as incertezas se possam assemelhar o mais possível a certezas. Algumas dessas balizas tomam a forma de pagamentos que temos de fazer ao conjunto da sociedade em que vivemos e que permitem que alguns digam que tipo de certezas devemos, ou melhor, podemos procurar, sabendo à partida que a quimera que oferecem serve só na altura em que procuram que o maior número possível de concidadãos adiram às suas propostas de certezas que, como já sabemos, não passam de incertezas camufladas. É assim desde o início dos tempos, desde que Deus impôs as suas limitações a Eva e Adão, quando sucumbiram à certeza de que ninguém os veria a escapulir-se à proibição de morder uma maçã de uma determinada árvore. Nasceu então um imposto. Foi-lhes imposto que deixariam de ter determinadas liberdades e que teriam de pagar para que a certeza da felicidade para a vida fosse uma realidade possível. Passaram a viver na incerteza de que a sua contribuição imposta seria suficiente para a certeza prometida por quantos foram deixados a regular as imposições impostas pela sociedade que se ia desenvolvendo. Essa incerteza dura até aos nossos dias, quando as imposições impostas variam consoante quem tem poder em determinada altura. Uns dizem que a certeza da felicidade será alcançada se formos por aqui, outros dizem que essa certeza só se alcançará se formos por ali e, quando se revezam na condução dos assuntos comuns, deixam incertezas, porque muitas vezes nem por ali nem por aqui, deixando-nos ainda mais na incerteza de que estão a utilizar bem e correctamente as nossas contribuições impostas. As mais das vezes, não estão. Então, certezas, quando nascemos, só temos duas: que a vida, tal como a conhecemos, um dia termina. Morremos. que, queiramos ou não, pagamos contribuições impostas – os impostos! Gostaria muito de poder viver só com a primeira certeza, porque a outra só traz incertezas!
Pedro Melvill de Araújo