Há dez anos, estava a aterrar no Porto, vinda de uma espécie de retiro, em São Tomé, e só ouvia falar na morte de Gisberta. Tudo acontecera num prédio inacabado, no Campo 24 de Agosto, no centro da cidade. Pelo menos 14 rapazes tinham agredido ao longo de vários dias uma transexual, sem-abrigo, com sida, tuberculose e anemia, que acabaram por atirar para uma espécie de cratera com águas paradas. Ninguém sabia o que pesara mais, mas era evidente que a morte de Gisberta representava um ponto extremo de uma violência, que, com outros contornos, noutros graus, todos os dias atingia pessoas transgénero. Eram um mundo à parte. Até os jornalistas pareciam incapazes de distinguir orientação sexual de identidade de género, homofobia de transfobia, crossdresser de transformista, travesti, transexual. O problema começa logo na família. Os pais dizem que não se importam que a criança seja menino ou menina, que o que querem é que seja saudável. Quando ouvem um filho ou uma filha dizer que nasceu com o corpo errado, parece que ficam a morrer, diz Zélia Figueiredo, psiquiatra do Hospital Magalhães Lemos. A sociedade reage pior às mulheres que nascem homens. Tantas mulheres trans tiveram de fugir de casa antes de começarem a viver como mulheres. Para sobreviver, já então algumas vendiam sexo na Rua Gonçalo Cristovão, uma delas oriunda da Madeira. E havia quem passasse por lá durante a noite e lhes atirasse tomates, fruta, óleo queimado. Um pequeno grupo juntava-se à tarde num café. E contava que havia quem fosse lá, como quem vai “ao jardim zoológico”. “Também somos filhas de Deus! A nossa mãe também teve dor!”, dizia-me Diana, que havia muito estava em processo de transformação. Não queria que a endeusassem, queria que a respeitassem. A morte de Gisberta foi uma “wake up call”. Muita coisa mudou no país nos últimos dez anos em matéria de identidade de género. Os activistas LGBT elegem a Lei da Identidade de Género como prova maior: desde Fevereiro de 2011, as pessoas trans não precisam de fazer uma cirurgia de reconfiguração de sexo para mudarem o nome e o género no registo, basta-lhes um diagnóstico de disforia de género assinado por um psiquiatra, confirmado por outro e aprovado pela Ordem dos Médicos. Dentro das comunidades LGBT discutem-se agora as insuficiências legais. Novas mudanças podem vir a caminho. O Bloco de Esquerda prepara-se para propor na Assembleia da República uma alteração que inclui o fim da exigência de diagnóstico, uma vez que a disforia de género já saiu da lista internacional de doenças mentais em 2012 (a homossexualidade só saiu cerca de 40 anos antes). Apesar das várias mudanças, a discriminação subsiste. As pessoas trans continuam a enfrentar agressões na família, na escola, no trabalho ou no espaço público, como ainda há dias me apontava Nuno Pinto, investigador do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa e dirigente da Ilga-Portugal, em conversa para um artigo de balanço no jornal Público. Para o confirmar basta ouvir o testemunho de pessoas trans ou espreitar os comentários nas redes sociais a artigos sobre o tema. O ódio resiste.

Ana Cristina Pereira