As lanternas eram um instrumento de auxilio ao trabalho continuo pela noite adentro em todo o mundo rural madeirense sendo, em determinadas circunstancias, utilizadas para rasgar a escuridão nas veredas e nas lombadas da nossa Ilha, em busca dos primeiros socorros ao povo da Madeira profunda, até finais da década de setenta do século passado. De chama fusca e fraca, jorravam tamanha energia para esculpir e moldar as paisagens da rugosa orografia madeirense, deixando um registo intemporal, tanto a nível da produção do sustento biológico como no espiritual de uma grande mancha de madeirenses que, apenas, só as memorias sobrevivem entre nós. A terra recompensava timidamente o trabalho aquém a embalava, mesmo quando, a dureza do basalto era inóspita à garantia das necessidades mais básicas destas populações. Era necessário vencer a escuridão da noite e as lanternas, a única luz de trabalho, rejuvenescia o animo muitas vezes perdido, permitindo sempre sonhar e acreditar num futuro melhor. Eram, no entanto, indissociáveis ao giro noturna da rega da terra arável. E, muito antes do romper da aurora, eram os olhos das noites de agonia e de descanso mal arrumado para muitas tecedeiras e bordadeiras, contribuintes sem renumeração para o malfadado rendimento familiar. Grande parte dos deveres da escola, eram também cumpridos à luz das lanternas, nascendo assim para algumas crianças, o sonho de um futuro mais auspicioso com o avanço do conhecimento das primeiras letras e dos números. Tudo isto, recentemente, foi alvo de meditação e de merecida homenagem aos nossos avos e pais, os grandes mineiros das terras dessa Madeira rural. Reflexão que se alargou aos problemas que envolvem a luta pela emancipação e o rapto de mulheres, crianças e aos refugiados em desnorte por toda europa. Inquietações que a comunidade da Ribeira Seca juntamente com o seu pároco, Pe. Martins Júnior, procurou inteligentemente trazer à reflexão da assembleia, que durante as manhãs frias das missas do parto enchiam por completo o pequeno templo da senhora do amparo. Citações extraídas do livro: Hino do universo do Pe. jesuíta Pierre Chardin, paleontólogo, filosofo e investigador da evolução natural, estatuto que lhe permitiu viajar pelo mundo, enriquecendo o seu pensamento documentado em diversas obras. O pensamento sobre o cuidar da terra da nossa casa comum do teólogo, escritor e professor universitário brasileiro, Leonard Boff, conhecido internacionalmente pela defesa acérrima dos direitos dos sem terra, no Brasil, contribuíram significativamente para uma melhor cidadania e a para uma religiosidade mais ativa, sobretudo, para daqueles(as) que enchiam o templo da senhora do amparo, durante o novenário dedicado à mãe do maior pedagogo e mestre de toda a historia do homem. São estas as lanternas do nosso tempo que empurram a comunidade da Ribeira Sêca a ver mais alem, em prol da defesa e da sustentabilidade da terra, da casa comum, segundo o Papa Francisco. Esta viagem, em volta da importância comunitária da luz das lanternas de outrora e da chama destas reflexões está, em suma, refletida no presépio erguido no palco do adro da Igreja local. Sem duvida, que ficamos perante uma viagem ao interior das diversas consciências sobre o mundo atual e que assegura a firmeza do ano novo de 2017, mais inconformista e globalmente melhor.

José d’Olim