No final de cada ano a sensação é sempre que foi um ano mau. Não me parece que tenha sido o caso em Portugal. Finalmente tivemos alguma inversão nas políticas de austeridade e o diabo não apareceu. Penso que grande parte das pessoas teve uma melhoria nas suas condições de vida, mesmo que ligeira e progressiva. Afinal parece ser possível crescer, reduzir o desemprego e devolver rendimentos às pessoas. Mesmo com o diabo sempre à espreita.
Este aparente desfasamento entre a nossa perceção pessoal e a realidade estatística é um tema explorado por Steven Pinker, no seu livro “Os Anjos Bons da Nossa Natureza” (Ed. Relógio D’Água, 2016). Uma leitura obrigatória para 2017 depois de um ano à espera do Diabo. Neste livro Pinker examina os demónios interiores que nos conduzem à violência e os anjos que dela nos afastam, mostrando como certas alterações nas nossas ideias e ações permitem que o futuro seja diferente. Nada disto tem a ver com religião ou moral mas sim com fatos históricos e evidência estatística, algo que o imediatismo dos media e das redes sociais menoriza.
Se olharmos para a história e para a evidência estatística o mundo tem melhorado de uma forma sem precedentes (o mesmo indica um estudo de António Barreto sobre Portugal). Nos últimos 200 anos a percentagem de pessoas a viver em condições extremas de pobreza passou de mais de 90% para menos de 10%. Metade deste progresso aconteceu durante a minha vida dos anos 70 até agora. Grande parte deste desenvolvimento está relacionado com o aumento da literacia. Em 1800 só pouco mais de 10% da população mundial sabia ler e escrever, hoje são mais de 85%. Em conjunto a melhoria das condições de vida e de acesso ao conhecimento conduzem a regimes mais livres e tolerantes. No início do Sec. XIX apenas pouco mais de 1% da população mundial vivia em democracia, a grande maioria vivia em regimes autocráticos ou de colonia. Hoje mais de 50% da população vive em regimes democráticos. Estes e muitos outros indicadores importantes estão disponíveis em http://ourworldindata.org.
Infelizmente os media dão mais atenção aos acontecimentos singulares do que a lentos mas importantes avanços globais. As notícias e os posts são iminentemente sobre as coisas que acontecem e não sobre as coisas que não acontecem. A queda de um avião, um ataque terrorista, a morte de uma celebridade, a subida do risco da dívida são eventos que induzem uma perceção falsa sobre as tendências globais relativamente à segurança dos aviões, da probabilidade de sofrermos um ataque terrorista, de morrermos de cancro ou de ataque cardíaco ou de termos que recorrer a ajuda externa. Faz parte da natureza humana e a questão não se resolve apenas com um aumento da literacia estatística. Fenómenos como o Brexit ou a eleição de Trump são exemplos de como a manipulação de fatos e eventos são questões de identidade. Se a minha família ou os meus amigos e colegas acham que uma ideia está certa a probabilidade de eu acreditar nisso aumenta independentemente do meu nível de escolaridade. Os processos democráticos, numa associação de estudantes, num clube de futebol, numa Universidade ou na maior economia ocidental não são isentos deste efeito de identidade tribal. Entre a evidência estatística e a pressão de ser aceite pelos pares a escolha raramente é racional.
2016 foi um ano cheio de eventos internacionais potencialmente assustadores. Mas foi um ano em que as condições melhoraram, pouco e lentamente sem grande aparato mediático (ou contra) mas melhoraram. Foi ainda um ano de grandes feitos e conquistas para Portugal. As condições melhoraram porque muitas pessoas decidiram mudar de atitude, os cidadãos que votaram em políticos mais arrojados, alegres e otimistas, os empresários que arriscaram exportar, os desempregados que aproveitaram uma oportunidade, os políticos que se entenderam de forma responsável em torno de soluções não convencionais, e até a nossa seleção e António Guterres que demonstraram que podemos ser os melhores do mundo mesmo contra tudo e contra todos. Portugal deu em 2016 vários exemplos de otimismo que convém celebrar, preservar e acompanhar de forma responsável. A alternativa é o pessimismo que se transforma rapidamente numa profecia auto-realizável.
As minhas resoluções para 2017 são continuar otimista relativamente ao futuro. Não o que Paul Romer chama de otimismo complacente – o sentimento da criança que espera passivamente pelos presentes de Natal. Mas o que ele designa por otimismo condicional, o sentimento de uma criança que quer construir uma casa na árvore e procura madeira, pregos e um grupo de amigos que o ajudam a construir uma coisa fixe. Bom Ano de 2017.