“Miguel Albuquerque homenageia Elmano Freitas” – DN. 08.12.2016.

1. O que esta foto documenta não é entendível por muitos e, metendo-me eu inevitavelmente nela, inexiste suficiente vocábulo para a descrever. Mas tenho o direito potestativo de tentar – e já vai perceber bem porquê. Estão (talvez) aqui – mesmo ferindo a suscetibilidade de terceiros – os dois maiores amigos da minha vida. O Miguel Albuquerque, hoje, Presidente do Governo Regional da Madeira, o Elmano Freitas, hoje e sempre, professor de natação do Clube Naval do Funchal. O Miguel Albuquerque, hoje, um confessionário politico na Quinta Vigia, o Elmano Freitas, hoje, um amigo com quem partilho o abalo de uma visita a um cemitério ou a uma missa. O Miguel Albuquerque, antes, amigo de viagens e de musica, o Elmano Freitas, antes (?!), amigo das bebedeiras e das noites de asneiras. Raramente nos vemos, mas, quando nos vemos, logo percebemos que a amizade é perene ao tempo. Uma amizade sincera e desinteressada não se alimenta do ego do dia-a-dia (estoira mesmo), nem se devasta quando os protagonistas trilham concepções de vida diametralmente opostas. É o caso. O Elmano e eu “comunistas” tipo “anarquistas” – o Miguel “pianista”.

2. O Miguel Albuquerque - fato-de-banho do Nacional - e o Elmano Freitas -fato-de-banho do Marítimo – foram ambos extraordinários nadadores de fundo na distancia dos 1500 metros em crol. No inicio dos anos 80 competiam nas águas geladas do Lido com a rivalidade dos clubes a níveis elevados e singularizada nas pessoas dos treinadores André Escórcio e Vicente Franco (falam-se hoje?). Tenho a ideia que o Miguel Albuquerque, recordista da Madeira na distancia, normalmente batia o Elmano Freitas – mas o Elmano na raça e em endiabradas cambalhotas finais batia também o Miguel. Era e é de arrepiar. Fora das piscinas, os nadadores e nadadoras do Nacional e do Marítimo namoravam uns com os outros. Lembro-me que o Miguel Albuquerque era giríssimo (corpo e cara) – mas lembro-me que o sacaninha do Elmano Freitas era mais engatatão. Naquela altura tínhamos os três (os da virgindade também!) esta coisa em comum: tarados por gajas do Nacional e, pior, as mesmas gajas. Era um misto de beijinhos e linguadinhos inocentes entre o Marítimo e o Nacional – enquanto os treinadores se digladiavam viperinamente um ao outro. “Isto não é a Rússia” – clamava a dona Zita Brandão ante a autentica escravidão de um treino de natação. Na piscina, tolhidos pelo frio, ninguém arriscava um pio.

3. Esta homenagem do Miguel Albuquerque ao Elmano Freitas define-os como pessoas. O gesto e as palavras do Miguel Albuquerque abraçaram a honra profissional do Elmano Freitas e exaltou os valores éticos do respeito e da consideração pela perseverança do adversário aprendidos na piscina do Lido. Coisinhas – a justa homenagem ao Elmano Freitas e os valores ético-desportivos da natação – só possível a quem se deixa conduzir pelo piloto automático do coração.

4. A foto (regresse a ela) é, de facto, inenarrável. Na cabeça do Miguel Albuquerque está escrito “complexo de piscinas” – na do Elmano Freitas “natação pura”. Fica a interrogação em discurso directo: onde estás verdadeiramente tu agora, amigo Miguel? Na antiga piscina de 25 metros do Lido ou no “complexo de piscinas” do PSD-Madeira? Vamos á última braçada.

5. Esta amizade de “natação pura” entre o Nacional e o Marítimo personificada pelo Miguel Filipe Machado de Albuquerque e o Elmano José Rosalino Almeida de Freitas – leal e com memória - é, por natureza, inquebrantável e imune a qualquer tentativa de interferência de um pivete politico-desportivo “tipo” cola. Com o amigo Elmano Almeida só há um “tipo” de resposta: vai levar na peida. Beijinhos e felizes “fodidinhas” em 2017.