Um júri federal norte-americano considerou que a revista Rolling Stone, o seu diretor e uma repórter difamaram uma administradora da Universidade da Virginia, num artigo sobre violação em grupo numa residência estudantil, noticiou hoje a imprensa.
Nicole Eramo, administradora da Universidade da Virginia, alegava que o artigo, publicado pela famosa revista em 2014, a retratava como uma vilã que tinha desencorajado a vítima de uma violação coletiva, uma mulher identificada apenas como Jackie, de denunciar o incidente à polícia.
Uma investigação policial não encontrou quaisquer provas que sustentassem as alegações de Jackie.
Por seu lado, os advogados da Rolling Stone frisaram que não há quaisquer provas de que a jornalista soubesse que aquilo que estava a escrever sobre Nicole Eramo era falso, ou de que tenha tido sérias dúvidas sobre se realmente acontecera.
Os membros do júri ouviram os argumentos finais de ambas as partes na terça-feira, após mais de duas semanas de testemunhos.
O artigo sobre a violação de Jackie desencadeou uma tempestade na universidade e em escolas de todo o país.
Eramo recebeu centenas de cartas iradas e emails a chamar-lhe “decana da violação”, entre outras coisas, e enfrentou protestos ao vivo à porta do seu gabinete.
A história caiu por terra quando outros órgãos de comunicação social começaram a fazer perguntas, e a polícia não encontrou provas que a sustentassem. O artigo foi oficialmente desmentido em abril de 2015.
Durante o julgamento de mais de duas semanas, o júri, composto por oito mulheres e dois homens, assistiu a 11 horas de depoimentos em vídeo, ouviu ao vivo uma dúzia de testemunhas e analisou quase 300 provas.
Em causa, estavam três afirmações feitas sobre Nicole Eramo no artigo e vários comentários que a jornalista emitiu sobre a “universidade” e a “administração” em entrevistas à imprensa, antes de o artigo ser retirado.
Entre as afirmações do artigo que Eramo considerou difamatórias, estava uma em que ela era citada - por Jackie - dizendo que a universidade não divulga todos os seus dados sobre agressões sexuais porque “ninguém quer enviar uma filha sua para a escola das violações”. Eramo sustenta que esta afirmação é uma invenção de Jackie.
O juiz rejeitou no início desta semana a queixa de Eramo segundo a qual o artigo, no seu todo, implicava que ela era uma “falsa amiga” de Jackie. A Rolling Stone tinha classificado isso como um “elemento crítico” do seu caso.
Porque o juiz determinou que Eramo é uma figura pública, ela teve de provar que a Rolling Stone tinha agido de “verdadeira má-fé”, no sentido de que sabia que o que estava a escrever sobre a administradora da Universidade da Virginia era falso ou tinha sérias dúvidas sobre a respetiva veracidade.
Os advogados de Eramo argumentaram que a jornalista abordou a história com ideias preconcebidas sobre a indiferença institucional a agressões sexuais e que ignorou intencionalmente afirmações e factos sobre Eramo que não encaixavam nessa narrativa.
Sustentaram que a repórter também ignorou sinais evidentes de falta de credibilidade de Jackie, incluindo alterações ao relato da sua violação e a sua recusa em deixá-la falar com pessoas que pudessem corroborar a sua história.
A defesa da Rolling Stone admitiu que a jornalista e os seus editores cometeram graves erros na forma como a história foi publicada, mas argumentaram não existirem provas de que eles agiram de má-fé.
Os advogados da revista defenderam também que a reporter e os seus editores acreditavam plenamente em Jackie até se aperceberem que ela não era fidedigna, no início de dezembro, depois de o artigo ter sido publicado.
A Rolling Stone concordou pagar todas as custas do processo da jornalista e quaisquer coimas que lhe sejam impostas no âmbito deste caso.
