A Websummit que se realizou esta semana em Lisboa é uma espécie de celebração da revolução digital. Não é uma feira de tecnologia é uma feira de ideias. Compreender esta diferença é fundamental para compreender este admirável mundo em que vivemos. O mundo da Apple e da Google, que já revolucionou uma dezena de industrias tradicionais e criou novas empresas globais mais valiosas que as tradicionais petrolíferas ou financeiras. Da distribuição e partilha de música (Napster, iTunes), à televisão (Netflix), alojamento (airBnB, homeAway), trabalho (Amazon Mechanical Turk, Clickworker), financiamento (Kickstarter, indiegogo), transporte (Uber, Tesla) e em breve energia e muitos outros sectores.
Esta transformação sem paralelo não é uma nova revolução industrial. A transformação digital possibilitada pelo software é muito mais do que isso. Todos os meus alunos leem vários artigos que definem o software como meio de armazenamento de conhecimento. Os outros meios mais conhecidos são o DNA, o cérebro as ferramentas e os livros. O DNA armazena conhecimento através da seleção natural, uma espécie sobrevive adaptando-se ao meio ambiente lentamente por mutações genéticas passadas de geração em geração. Os humanos desenvolveram desta forma o segundo meio de armazenamento de conhecimento o cérebro. Ao contrário do DNA o cérebro permite-nos rapidamente aprender e modificar o conhecimento sem esperar pela evolução geracional. Mas os cérebros são voláteis o conhecimento perde-se quando morremos. A alternativa é armazenar o conhecimento nos outros dois meios que o tornam mais persistente - as ferramentas e os livros. Quando crio um machado ou escrevo um livro estou a tornar persistente o meu conhecimento sobre uma determinada realidade. Como cortar carne ou no caso de um livro de receitas como a cozinhar. Os livros em particular permitem transcender o espaço e o tempo.
O software é particularmente disruptivo porque tem todas as qualidades dos outros quatro meios de armazenamento de conhecimento. É persistente como o DNA, os livros e as ferramentas, mas é igualmente intencional e fácil de alterar como o cérebro. Ao contrário dos livros, que deixados numa prateleira não fazem nada a não ser ganhar pó, o software pode ativar o mundo físico quando colocada a “correr”. Num computador, num telemóvel, numa máquina de lavar roupa, numa televisão, num semáforo, num carro, num avião, numa central elétrica, num míssil balístico ou no mercado financeiro.
O software está a alterar profundamente o nosso mundo. Em algumas coisas visíveis como a forma como comunicamos e trabalhamos, mas também em coisas invisíveis como o funcionamento dos mercados financeiros onde metade das transações são entre computadores sem intervenção humana. Esta transformação digital tarda em entrar em sectores mais tradicionais, em particular os serviços públicos como a educação, a saúde e a própria organização do estado. Não estou a falar iniciativas de fachada, como a loja do cidadão, do munícipe, da casa e empresa na hora. Estas iniciativas são importantes porque simplificam a forma como nos relacionamos com os serviços do estado, mas estão longe do que a transformação digital permite e exige. A organização do sistema de ensino é um bom exemplo. Ainda temos um sistema de ensino orientado ao modelo da revolução industrial, onde as crianças e os jovens adultos são colocados em linhas de montagem de onde esperam sair com um emprego certo ou frustrados para a vida.
Escolas, Universidades, Segurança Social, Hospitais e muitos outros serviços estão organizados para uma sociedade que já não existe. Os seus agentes lutam pela sobrevivência agarrados e um modelo que já não serve ninguém. Reagem a qualquer sinal de mudança tal como os taxistas à Uber. Atirando saquinhos de cocó ao futuro. Os taxistas lutam legitimamente por um modelo ultrapassado. A Uber já é uma das principais empresas de transportes do mundo e não tem nenhum carro. Os taxistas mal sabem que a Uber está a utilizar os seus motoristas apenas para treinar o software que vai permitir produzir em pouco tempo os carros autónomos. Se não for a Uber serão outros, por exemplo os Chineses (os tais que inventaram o aquecimento global). A revolução digital não é uma escolha política é uma transformação sociotécnica. As escolhas políticas não param revoluções tecnológicas, quanto muito servem para regular e corrigir os desequilíbrios que são sempre graves em períodos de transição.
Tal como a Websummit demonstrou a transformação digital representa uma grande oportunidade para um nova geração preparada que não tem medo do futuro. Que sabe a importância das ideias e da sua tradução em conhecimento e software. Lisboa aproveitou esta oportunidade e muito bem. O entusiasmo com a Websubmmit é uma boa coisa. Precisamos de eventos como estes para mobilizar a sociedade em torno de um modelo de desenvolvimento para Portugal baseado no conhecimento, na investigação e na qualificação das pessoas. Valorizar o conhecimento e as pessoas não a contabilidade e o empobrecimento.
Mas para Portugal poder ter alguma possibilidade na transformação digital é fundamental que comece rapidamente a concentrar recursos. A começar pela educação, vários países já começaram a ensinar na primária as crianças a traduzirem as suas ideias em sistemas de software. Isso é fundamental para termos jovens preparados para esta nova era digital. Em muitas Universidades todos os cursos envolvem uma componente de competências computacionais. Não estou a falar de ensinar Word e Excel, muito menos a programar com linguagens complexas. Estou a falar de ensinar pensamento computacional tal como se faz em Harvard e no MIT com o scratch. Aumentar as competências de pensamento computacional na nossa população jovem devia ser um imperativo nacional. A alternativa é atirar furiosamente saquinhos de cocó ao futuro.