O ginásio fervilhava, alguns pais e mães tinham vindo assistir à festa e a Raquel e eu já nem sabíamos o que nos tinha dado para estar no alinhamento do espectáculo, aquilo tinha tudo para correr mal. Fernando Pessoa, Zeca Afonso e uma festa de alunos do liceu não combinavam, mas o professor Inácio não era homem para menos. Ou havia qualidade ou não havia, nunca nos deixava outro caminho e nós fomos atrás dele para os ensaios, onde testou vozes e fez escolhas. Quem cantava, quem declamava, quem fazia o coro.
“Um soprano”, “um contralto”, repetia o professor, enquanto a meia dúzia de malucas decidida a entrar na festa fazia escalas esganiçadas depois das aulas numa sala emprestada do edifício principal, onde entrava pela porta dos professores com ares de estrelas da ópera e do teatro clássico. Entre risinhos e ensaios, lá fomos acertando o tom ao ‘Vejam bem’ do Zeca Afonso, todas atrás da voz clara e bonita da Raquel, que era a única que sabia de cor as músicas que tocavam na rádio, as da telenovela e as dos reclames da televisão.
E cantava no intervalo, nas horas mortas dos feriados, sempre que lhe apetecia ou sempre que eu perguntava como era mesmo a música, aquela do par romântico da telenovela ou a do anúncio da Coca-Cola. A Raquel sabia e cantava e, nos ensaios da festa, não tardou a ser a voz daquele coro feito à pressão, um mês antes do fim das aulas e pela batuta do professor Inácio. Foi da paciência do professor de Português que nasceu aquele número em que a Raquel cantou e eu declamei Fernando Pessoa. Sim, o professor era paciente, exigente e tolerante, mas percebeu depressa que a minha voz de soprano não tinha préstimo para as cantorias.
Eu fiquei com a poesia e fui para casa decorar versos, andei pela casa a dizê-los em voz alta até a minha mãe os saber de cor também. “Quando vier a Primavera se eu já estiver morto” começava o poema do Alberto Caeiro, heterónimo de Pessoa, e a minha mãe rabujava, que não era bonito falar de morte, que aquilo até custava a entender e nem rimas tinha. Poesia era sentimento em puro, não eram quadras, qualquer um sabia isso. Eu sabia, sentia e sonhava, pelo menos com aquelas estrofes, o que dava assim a sensação de ser especialista, de entender e saber tudo como só consegue aos 17 anos.
E como sabia tudo com tanta certeza, também me tremiam as pernas com o ginásio cheio, as outras turmas a avançar no alinhamento e aquele rapaz a cantar ‘Blowin’in the wind’ do Bob Dylan, em inglês e só por isso 20 furos à frente do nosso ‘Vejam bem’. E nós sentíamos o fracasso a chegar, a Raquel já dizia que tinha vergonha e os versos fugiam-me da cabeça, o desastre estava a caminho, estava certo como a maior das fatalidades. E fomos respirar à rua, ficámos ali sentadas no campo num instante e depois, ainda se cantava o Blowin’in the Wind no ginásio, fizemos uma promessa, uma promessa para enfrentar a festa do fim do ano, a vida e tudo o que ela trouxesse: íamos ser amigas para sempre, mesmo para sempre.
E isto foi há 28 anos, fez em Junho. Esta semana o Bob Dylan ganhou o Nobel da Literatura e eu lembrei-me desta história e desta amizade, que tem 30 anos e não foi levada pelo vento.