Celebrar 140 anos de existência é um marco histórico. É essa efeméride que se assinala esta semana, neste jornal que o leitor tem agora perante si, em formato papel ou digital.

Fundado pelo cónego Alfredo César de Oliveira, num ano em que se publicaram cinco outros títulos (“A Verdade”, “A Aurora Liberal”, “A Aurora Literária”, a “Estrela Académica” e o “Liberal”), marcou desde logo a diferença por ser o único a prometer periodicidade diária, com um enfoque marcadamente noticioso e focado nos problemas e interesses da Madeira.

Passados tantos anos, será que tudo mudou assim tanto? Que notícias mereceram destaque em 1876?

Para começar, o “Diário” teve um bom parceiro de berço: no mês de março, nasceu em Milão o “Corriere della Sera”, o mais lido e reconhecido jornal italiano.

O ano de 1876 foi indelevelmente marcado pela Exposição Universal de Filadélfia, na qual se comemorou o centenário da declaração de independência dos Estados Unidos. A cerimónia de inauguração contou com visitantes ilustres, como o Presidente americano Ulysses Grant e o Imperador do Brasil, D. Pedro II. Para além do número recorde de visitantes (alegadamente 10 milhões, 20% da população americana à época), esta Feira teve o condão de popularizar a banana, até então quase ignorada naquele país.

Foi também ano de eleições presidenciais nos EUA: o democrata Samuel J. Tilden ganhou em votos, mas o Colégio Eleitoral escolheu o republicano Rutherford B. Hayes. Tudo normal, portanto!

Nota positiva para a presença da republicana Sara Spencer, a primeira mulher a participar numa convenção presidencial americana.

Apesar de hoje em dia é que isto está tudo louco e tal, ao longo do ano de 1876 eclodiram diversos motins raciais nos Estados Unidos, causando vítimas e obrigando à intervenção do exército. Entretanto, na Bulgária, os insurrectos da Revolta de Abril eram brutalmente reprimidos pelos otomanos; a Sérvia declarava guerra à Turquia, e o Montenegro também; o Quirguistão era formalmente anexado pelo Império Russo de Alexandre II; acabava a tolerância religiosa no Sudão; o sultão otomano Abd-ul-Aziz era deposto e substítuído pelo seu sobrinho Murat V, posteriormente deposto e substituído pelo seu irmão Abd-ul-Hamid II; a Etiópia defrontava e batia o Egipto na Batalha de Gura. De volta aos “States”, o bando de Jesse e Frank James sofria o seu primeiro revés em Northfield, do qual resultou a morte ou captura de muitos dos seus elementos; e teve lugar a célebre batalha de Little Big Horn, deixando para a posteridade os nomes dos vencedores (Sitting Bull e Crazy Horse) e dos vencidos (o 7º regimento de cavalaria do General Custer).

Já se sabe que isto actualmente é que está tudo lixado, por conta das alterações climáticas, mas mesmo assim, em 1876 o Japão foi assolado por terramotos e tsunamis, que causaram cerca de 28.000 mortes; como se não bastasse, o Grande Ciclone Backerganj devastou a Índia Britânica (actual Bangladesh), deixando um rasto superior a duas centenas de milhar de vítimas.

Por cá, foi fundada a Caixa Geral de Depósitos, que tantas dores de cabeça nos dá em pleno século XXI; Ramalho Ortigão escreveu o “’Guia de praias de Portugal’; e nasceu Júlio Dantas, médico, poeta, político, dramaturgo e ódio visceral de Almada Negreiros (PIM!).

1876 também viu nascer o futuro chanceler Konrad Adenauer, bem como Gertrud Margarete Zelle, a tristemente célebre Mata-Hari. Do lado dos óbitos, marcaram presença ilustres figuras como a escritora George Sand, o lendário pistoleiro Wild Bill Hickok, o ditador e general mexicano Antonio de Santa Anna (remember El Alamo?) e o escritor e activista anarquista Mikhail Bakunin.

Na cultura, estrearam obras de Brahms, Tchaikovski (Lago dos Cisnes), Wagner (O Anel do Nibelungo), e foram publicados, entre outros, “As Aventuras de Tom Sawyer”, de Mark Twain, “Miguel Strogoff”, de Júlio Verne, e “L’uomo delinquente” de Cesar Lombroso.

Ok, mas agora há Pedro Chagas Freitas e Maria Leal (hoje aqui – só pra ti).

Uma curiosidade, a fechar: foi em 1876 que Alexander Graham Bell e Elisha Gray disputaram a patente da invenção do telefone, atribuída ao primeiro por decisão do supremo tribunal. E é a partir dum telemóvel, esse tão insuportável quanto insubstituível sucedâneo daquela invenção, que me estão a ligar do DIÁRIO a perguntar por este texto.

Vai seguir, pá!

E já agora, PARABÉNS, e mantenham viva esta premissa, enunciada há 140 anos:

“«...pugnaremos, quanto em nós couber pelos interesses desta povoação.»