Ok. Vamos voltar à conversa anterior: este Marítimo não sabe defender, não tem noções defensivas e, pior, é psicologicamente frágil. Se naquela altura eramos a segunda pior defesa da liga, após mais duas jornadas, agora somos oficialmente a pior defesa do campeonato, com 34 golos sofridos em 16 jogos. É certo que é a par do Belenenses mas o título está lá. Para termos a noção da expressividade destes números, foram 14 golos sofridos nos últimos quatro jogos (13 deles nas três partidas fora de portas). Diga-se o que se quiser, com números desta expressão, é quase um milagre a equipa se encontrar na posição em que está. Esse “milagre” é mesmo a sua capacidade ofensiva que deu para conquistar cinco vitórias e três empates nos dezasseis jogos já disputados para a Liga.
Este é um dos grandes problemas do Marítimo versão 2015/2016: a enorme falta de equilíbrio entre as suas soluções ofensivas e o seu trabalho defensivo, expondo ainda mais a já débil valia do sector mais recuado da equipa. Ou seja, é verdade que a qualidade dos jogadores que têm passado esta época pelas posições defensivas está longe dos padrões de uma equipa à qual se exige um compromisso europeu. Isso tem sido por demais evidente ao longo da temporada e que, na Luz, atingiu proporções de quase cataclismo bíblico, tantos foram os erros, individuais e coletivos. Mas volto a bater na mesma tecla: para mim o problema não está unicamente ao nível do valor individual, da maior ou menor qualidade dos seus intervenientes (se bem que “mais” é sempre melhor que “menos”), mas também ao nível do trabalho técnico/táctico imposto pela visão daquilo que pretende o seu treinador. Por outras palavras, para mim o problema não está em ter perdido pelos números que se verificaram no jogo de quarta-feira, mas sim pela forma como tudo aconteceu, pela resposta que a equipa não foi capaz de dar e, claro está, por todo o historial da presente temporada, nada abonatório face aos objectivos propostos no início da época.
Eu acredito que a qualidade individual não é obrigatoriamente sinónimo da qualidade coletiva da equipa. Isto pode deixar o leitor algo confuso mas, na realidade, é extremamente simples: a força do colectivo é superior à força do indivíduo. E é na defesa do coletivo que se consegue esbater as fraquezas individuais e exponenciar as valências positivas. E exemplos não faltam: o Leicester City não tem, individualmente, melhor plantel que o Manchester City, United, Liverpool – no entanto ocupa o segundo lugar na Liga Inglesa (dá mesma forma que o Chelsea vale muito mais que o 14º lugar); o Atlético Madrid não tem, individualmente, plantel mais recheado que Barcelona e Real Madrid – mas está em primeiro na sua Liga. Mesmo entre nós, Arouca, Guimarães, Setúbal ou mesmo o Paços, não têm mais ou melhores soluções que o Marítimo, porém estão à nossa frente. Tudo isto tem a ver com organização, capacidade de liderança, trabalho de campo e consistência.
Esta equipa já provou ter qualidade, como demonstram alguns dos resultados já alcançados esta temporada. Falta-lhe continuidade, falta-lhe equilíbrio, até para compensar a menor qualidade individual de alguns dos seus actores com a maior capacidade de outros.
Há outros pormenores que poderíamos discutir, como porquê mexer na dupla de centrais para um jogo destes, ou como é que um “reforço” é apenas sexta escolha, inclusive atrás de um jogador de 36 anos com apenas uma partida disputada esta temporada. Mas isso são pormenores que vou deixar para comentar no final da primeira volta, já este domingo, após o embate frente ao Moreirense. E alheios a tudo isto, lá estaremos para a apoiar o nosso Marítimo!
Luís Miguel Rosa, Advogado