É no meio da Festa, do fogo e dos presentes que Portugal se prepara para escolher o novo Presidente da República. Talvez esse ambiente festivo seja, em parte, responsável pelo generalizado alheamento e, pior do que isso, pela sensação de que isto está tudo feito e que Marcelo ganha à primeira volta. Não sei se será exactamente assim. Tenho cada vez mais dúvidas em relação às verdades ditadas pelas sondagens, algumas aparentemente feitas a gosto. Mas noto que o País anda distraído com episódios laterais. E mesmo o país político continua focado nas últimas eleições, aquelas que já passaram e onde já não é possível ter qualquer intervenção. Passados três meses, a esquerda continua a desenterrar pérolas do governo anterior e a direita a dizer que ganhou as eleições mas sem votos suficientes para suportar um governo minoritário. E assim, a 20 dias das eleições presidenciais, o debate político anda centrado no escândalo do Banif, nas falhas graves da saúde, nas questões económicas e na reposição de algumas regalias. As eleições do próximo dia 24 apenas surgem na agenda porque há debates obrigatórios nas televisões e entrevistas a rodos nos jornais. Mas nada disso parece interessar aos eleitores, mais preocupados em saber quem vai sair de ‘A Quinta’ do que quem vai entrar no Palácio de Belém. Acredito que este divórcio não é apenas provocado pelo desinteresse dos eleitores ou pelo discurso pouco motivado dos candidatos. Será mais o resultado de uma década em que Cavaco cavou um longo fosso entre a Presidência da República e os portugueses. Acredito que são poucos os que acompanham a actividade presidencial com entusiasmo. Porque Cavaco não entusiasma, não cativa, não emociona. Não aquece, nem arrefece. Cavaco generaliza, fala dele próprio como se fosse outra entidade e esteve muito distante do país real. Lembro-me de Mário Soares e dos debates que travou com garra, das posições que tomou e defendeu com alma. Lembro-me de Jorge Sampaio e da prudência e sabedoria que revelou. Das emoções que passava nas alegrias e nas tristezas. E lembro-me do cinzentismo de Cavaco. Das suas birras com assuntos domésticos como foi o estatuto dos Açores ou o episódio das escutas. Lembro-me das suas garantias no caso BES. Lembro-me dos silêncios que teve em relação à Madeira. Da cumplicidade inaceitável que revelou em relação ao pior do jardinismo. Lembro-me e não perdoo. Cavaco foi um Presidente calculista que não deixa saudades. Um tecnocrata que se instalou em Belém, que defendeu os mesmos de sempre e teve intervenções apagadas e despropositadas. E terminou o mandado revelando uma raivinha infantil contra a esquerda num discurso totalmente incoerente como o que fez quando percebeu que ia ter que dar posse a António Costa com o apoio do PCP e do BE. Cavaco tornou a Presidência da República distante. E o que é distante, mais facilmente se torna desinteressante. Isso ajuda a compreender o alheamento do país em relação às eleições presidenciais. Entretanto, o país político empobrece, mas o astuto Marcelo agradece.