Podemos até “fazer de conta” fingindo que a vida, mais sobressalto menos sobressalto, continua a acontecer naturalmente. Podemos até acordar tacitamente num pesado silêncio “socialmente correcto”, mas começa a ser muito difícil disfarçar a inquietação que, exceptuando os alienados, se apoderou de todos. Há uma angústia e uma tensão que se infiltraram, ao longo das últimas semanas, nas conversas e nos gestos mais banais. Estamos num país arrasado pelas políticas de destruição do bem-comum levadas a cabo pelas troikas interna e externa ao serviço dos interesses transnacionais do deus mercado semeando desemprego, exploração, pobreza e insegurança. Entretanto, e cada vez mais de perto, começaram a chegar-nos os gritos e os rostos de vítimas dessas mesmas desgraças que, noutras latitudes, foram sendo despojadas de tudo até ao extremo absurdo da guerra. Agora nem a pobreza nem o desespero e a morte são realidades distantes, bateram-nos à porta, entraram-nos em casa e recusam-se a afastar-se. Agora já não conseguimos continuar a negar que aquilo que este governo nos andou a fazer pode acabar da mesma maneira que acabou para os que arriscam a morte porque ainda têm esperança em nós. Deles, a ordem capitalista do deus mercado quis as riquezas naturais, de nós quererá a sujeição e a mão-de-obra escrava porque dois pilares a sustentam: a exploração dos seres humanos e a depredação do planeta. Temos duas opções: acordar e agir solidariamente contrariando a ordem dominante ou então, alinhar como peões manipulados em perigosas teorias da conspiração que semeiam o ódio e a violência entre iguais. Vamos acordar e agir solidariamente porque temos o dever moral de evitar uma guerra que a Alemanha, como leal servidora do deus mercado, já inscreveu na sua agenda política. No dia 4 mostremos aos que a serviram durante estas últimas décadas que exigimos mudança e sabemos que há alternativa.
Isabel Cardoso Professora