
O que será que os fez assim? Numa terra que soube o que foi ser massacrada pela ditadura de Salazar mas resistiu, em que praticamente todas as famílias tiveram filhos e irmãos que emigraram para fugir à fome, que foi das mais martirizadas nas incorporações para a Guerra Colonial e que foi a que mais ganhou com a liberdade de Abril, os madeirenses deveriam ser, hoje, dos mais solidários do país e também os que melhor compreenderiam a importância dessa solidariedade para quem foge de perseguições e guerra.
Muitos, acredito, ainda são assim. Sobretudo os mais velhos que sabem a importância de deitar a mão ao vizinho, sem pedir nada, apenas porque é decente.
E é de decência que falamos quando se entra na discussão sobre a vinda de refugiados para a Madeira. Não é uma questão de opções, de pontos de vista ou de ideologias é, simplesmente, decência. Os argumentos sobre a origem dos conflitos, sobre a segurança que teremos de reforçar, só podem vir depois de ajudar aquela gente que foge do terror. Por isso, custa a perceber as afirmações xenófobas e imbecis – o presidente do governo acertou na classificação - que se multiplicaram nas discussões patéticas das redes sociais. Até foi possível ler que iam 'trazer doenças'... Isto não se diz, pura e simplesmente. É asqueroso.
O que será que fez esta gente ficar assim, sem sentimentos, sem consciência, com muita maldade?
No resto do País, em grandes cidades e nas aldeias, grupos de cidadãos organizam-se para receber famílias que fogem da guerra e do terror. Por cá, como infelizmente se tornou regra num tempo recente de má memória, queremos ser diferentes e fazer figuras tristes.Depois, também como sempre, exigimos solidariedade para os nossos problemas e por mais estranho que pareça... até recebemos.