“Refugiados e migrantes têm direito ao respeito e proteção. Muitos fogem de zonas de violência e de conflito armado nos seus países, outros procuram escapar a uma pobreza opressiva. Todos têm o direito ao respeito pela sua dignidade, a ser protegidos e ao acesso às mais elementares necessidades humanitárias, como a alimentação, água, cuidados de saúde e educação. Devemos responder com humanidade aos seus apelos.” “Traduzido de um excerto de um texto do Comité Internacional da Cruz Vermelha”. O tempo em que diariamente a comunicação social nos bombardeava com naufrágios de barcaças apinhadas de seres humanos em fuga dos seus países assolados pela guerra resultante da famosa primavera árabe, parece ter acabado, apesar de continuarem a acontecer em pleno “calmo” Mediterrâneo, ali mesmo na babujinha das praias do sul da Europa. O cenário de caos humanitário transferiu-se para terra. Das nossas vizinhas ilhas Canárias primeiro, para Lampedusa depois, para as ilhas gregas até ao coração do continente europeu. De cayucos e pateras carregadas de homens, mulheres e crianças, passamos ao arame farpado das fronteiras e aos comboios superlotados de gente apressada e em busca de um lugar onde recomeçar uma vida interrompida. Na confusão surgem os traficantes prontos a aproveitar-se do desespero de quem quer a todo o custo chegar a lugar seguro. Pelo caminho ficam os mais fracos e entre eles as crianças, como aquela cuja fotografia, inerte numa praia turca, fez abalar as consciências mais empedernidas. Enquanto isso a Europa continua em reuniões para decidir e dividir. Reuniões demoradas e pouco conclusivas que não conseguem chegar a um consenso quanto à fórmula para se chegar à quota de refugiados que caberá a cada país receber. Não deve ser fácil agradar a todos e todos terão de compreender que a hora é de solidariedade. Em antecipação países, regiões e instituições avançam com as suas disponibilidades. Mesmo para os cidadãos de cada país, potencialmente recetor, não será fácil assimilar que havendo entre os seus quem passe por dificuldades, se tenha que receber um determinado número de refugiados. Em Portugal, país signatário das Convenções de Genebra, acontecerá o mesmo. Muitas vozes se levantarão contestando e pondo em causa a envolvência do nosso país nesta causa humanitária, mesmo sabendo que a decisão foi tomada em instâncias superiores. Estas decisões poderão não agradar a todos, nunca agradam, por isso seria boa política que em tempo útil se explicasse à população tudo o que está inerente a esta missão. Quantos refugiados iremos receber, em que condições, que instituições e com que meios serão envolvidas. Os portugueses têm fama de acolhedores e de solidários e não será pelos comentários infelizes de alguns que deixaremos que continuem a morrer crianças na praia. O que gostaríamos era que a Europa percebesse de uma vez por todas, que estes refugiados têm um país onde já tiveram uma vida estável e feliz e onde um dia desejam regressar, sejam essa mesma Europa e outras potências mundiais capazes de acabar com os negócios das armas e do petróleo que sustentam esta catástrofe.
Rui Nunes