Nos últimos tempos uma realidade tem ganho particular relevância na atualidade informativa, na atenção da opinião pública e mesmo nas preocupações dos políticos. Estou, obviamente, a falar da atual crise dos “refugiados” que fogem da guerra na Síria e de outros conflitos no Médio Oriente e Sul do Mediterrâneo (Iraque, Afeganistão, Líbia,..) e que tão intermináveis discussões e profundas divisões estão a provocar entre todos nós europeus. Esta temática é, sem dúvida, das mais delicadas que a Europa tem em mãos (até parece que a crise da Zona Euro e da Grécia já perderam a sua importância), por causa das possíveis implicações e consequências (ainda por apurar) na sociedade europeia. Até porque nada parece indicar que esta vaga de refugiados, autêntico êxodo, vá diminuir nos próximos tempos, devido à manutenção das razões (continuidade dos conflitos e guerras, das lutas étnicas) que estão na origem deste fluxo de migrantes à procura de melhores condições de vida. Curiosamente este fluxo de pessoas não se faz no sentido dos países árabes, cuja proximidade geográfica, linguística, cultural e religiosa é muito maior do que em relação aos estados europeus. A questão deste fluxo de migrantes poderá ter que ser vista não apenas como um movimento de “saída”, de “partida”, mas igualmente indicar, desde o princípio, que tal êxodo é também uma libertação. Assim, não se acentua tanto o lugar que se abandona, as aflições experimentadas, as diferentes formas de violência e opressão, mas a finalidade da saída, no sentido da libertação dos mais variados perigos. Deste modo, aquilo que atrai este autêntico êxodo de refugiados para a Europa não será apenas a prosperidade material, mas também a paz, a democracia, a liberdade, o respeito e a tolerância. Neste contexto, e num sentido mais amplo, os “refugiados” são, portanto, todas as pessoas que deixaram os seus países devido a conflitos, violências, violação a direitos humanos básicos, catástrofes, miséria, e expressam a crise da cidadania, dos direitos humanos e do próprio Estado-nação, ou seja, a crise que existe e que se prolonga desde que o homem experimentou a privação do direito a ter direitos. É verdade que no movimento do êxodo havia (haverá ainda?) uma promessa que devia emergir como uma resposta ao vazio da vida inumana e ao seu caráter trágico. Essa promessa é “produtora” de resistência, é mobilizadora das vontades, é construtora da própria individuação e personalização dos sujeitos que fortalecem o sentido do protagonismo pessoal e coletivo em busca de vida, de uma vida que vale a pena ser vivida. Apesar de toda pobreza e da falta de recursos materiais, essas pessoas efetivamente dispõem de uma enorme riqueza humana e poder de criação e de recriação da vida. Deste modo, em paralelo aos movimentos de saída (pelas razões que apontamos e não por outras), caraterizadas pela recusa dos conflitos, da violência, da fome e das privações, existe o desejo de liberdade e democracia. O caráter ao mesmo tempo negativo (saída e recusa da violência) e positivo (desejo de liberdade) deste êxodo, apresenta uma força extraordinária, pois produz a resistência contra a opressão e a exploração do humano e ameaça a atual estabilidade das hierarquias e divisões globais do poder. Neste sentido, a resistência (em todas as suas formas) nunca será uma celebração do sacríficio ou da morte (mesmo que ela aconteça), mas sim a afirmação máxima da vida.
Marco Gomes