Amaro Santos O verão está a terminar e com ele a euforia das suas festas. A própria natureza recompõe-se para um novo ciclo. Mas… euforia para uns, insanidade para outros. Não querendo especificar porque é desregra geral, a minha motivação levou-me para mais um concerto nocturno do género pop/rock numa festa madeirense - Um palco monumental, colunas de som poderosíssimas, mesa de mistura de ponta, equipa técnica vanguardista… redundando numa sonoridade tóxica para os meus ouvidos: 1 – Não tive paciência para assistir a um concerto poluidor. Passei silenciosamente pela equipa do som, com os dedos nos ouvidos, para o meu protesto e saí dali. 2 – Os sons eram demasiado intensos, como que a serem programados para entrar no guiness pelos decibéis, prejudicando gravemente a saúde e a tranquilidade do espectador. Os mais jovens não se preocupem ainda com isso, mas as entidades responsáveis tinham de ter essa atenção. Eles serão os surdos d’amanhã e alguns já têm “zumbido” nos ouvidos. 3 – Os sons saíam deformados, de acordo com o excessivo entusiasmo da equipa técnica composta por gente jovem, sem ninguém para impor limites. 4 – Esta concentração do som em potentes colunas e “acelerador no fundo” tende a afastar do palco muitos fãs para distâncias auditivamente mais confortáveis. Era o meu caso. 5 – Este modelo sonoro cria sofrimento também aos cidadãos que estão em casa a descansar depois de uma jornada de trabalho, e que acabam por apontar o dedo às instituições por falta de respeito pela lei… e a tendência é para agravar. Assisti a várias queixas de pessoas que não conseguiam dormir, especialmente pela forte batida rítmica e que vai se transformando em stress acumulado. 6 – Compreendo que os jovens apreciem essa adrenalina, além de não verem o problema futuro dos ouvidos, choca com os mais velhos. 7 – Outros desconfortos o leitor podia acrescentar… Este desassossego não é apenas uma questão de gostar ou não gostar. É sobretudo um problema de saúde a que o direito não pode ficar indiferente. As potentes colunas com sons concentrados em duas alas, expelindo desalmadamente decibéis, causam danos ao cérebro. Podemos evitar essa crueldade à natureza humana, optando por colunas mais pequenas espalhadas pelo espaço festivo, proporcionando um efeito sonoro mais suave e equilibrado às diferentes gerações. As instituições deviam estudar o assunto. Os bons concertos são aqueles que aliam a performance musical à cristalinidade tímbrica e isso deve ser uma inquietação de técnicos e artistas. A “mais bela criação do homem” não pode ter a mesma espiritualidade do “quem fala mais alto é que tem razão” aliada ao testar da potência do “carro novo” na mesa de mistura. As festas madeirenses têm os seus foguetes. Estes sim, é que têm de anunciar aos que estão longe, que as festas também podem ser vividas em família.