Com o fim do Verão e, com ele, as férias para a maioria das famílias portuguesas traz-nos um tempo assaz ruidoso qual notalgia de um “paraíso” que, como mito, lenda ou crença, tem acompanhado a vida de todos nós, qual resposta de um economista que acredita na possibilidade de se estabelecer um nexo entre os sonhos do passado e as aspirações do presente. Na certeza evidente de que estamos rodeados de dificuldades, crises e confrontações cujas causas designadamente, a “contra utopia do crescimento” configurada no modo de produção mais brutalmente produtivista, mas também sabendo que elas só serão insolúveis se não tivermos por meta a reconquista desse mesmo paraíso. De facto vivemos num mundo conturbado e perigoso e num quadro caótico, sem parâmetros de orientação básica onde, como dizia E. Morin, apresentam características próprias deste tempo, a insegurança, a incerteza, o risco, a vulnerabilidade, a inquietação. Acresce que o país foi afectado pelo círculo vicioso da vulnerabilidade: condições pré-existentes que levaram a intervenções externas austeritárias que agravaram esta vulnerabilidade. Neste quadro, a política não está para entretenimento de medíocres nem comentários sofistas e, muito menos, para adormecer na indiferença. Neste contexto, é fundamental que os políticos cumpram o que prometem, sem subterfúgios; não vendam ilusões, não prometam o que sabem que não podem cumprir. Pergunto-me pelas razões que levam a maioria dos jovens ao desinteresse pela política e a população à desconfiança em relação aos políticos. Será porque pensam nas suas mentiras e nos conluios e cumplicidades entre a política e os negócios? É preciso ir ao essencial, em debates sérios – as arruadas são secundárias – sem rasteiras nem intrigas e amuos, apresentando contas com rigor e fiáveis e sem inveja nem necessidade de deitar abaixo. O que se passou nas últimas eleições não se deve repetir. As promessas não cumpridas e os sacrifícios devastadores exigidos à maioria do povo português são imperdoáveis. Fundamental é também hoje recordar a equidade nos impostos e a consequente atenção às assimetrias sociais. É imoral fugir ao trabalho, mas também o é aproveitar a crise para explorar os mais fracos. E não se abandone os mais velhos… Nestas férias, onde tive oportunidade para uma reflexão profunda, se algo pude concluir é que Portugal está doente. E não se vislumbra a cura. À falta de melhor resta-nos o futebol. Pudera!, não temos outro. Triste balanço que não nos deve surpreender. A tecnocracia europeísta, que há tantos anos nos governa tem destes descuidos: entretêm-se a fazer contas à margem da realidade; elabora estatísticas mas ignora as pessoas; formula equações mas não tem ideias; gere mas não governa, caminha e, afinal, anda às voltas. Está aqui mas podia estar noutro planeta. O resultado está à vista: sem âncoras ou amarras de espécie alguma, destituído de qualquer referência política ou religiosa, o país, órfão de si mesmo, tresmalhou-se e já não sabe por onde vai. Nem sequer sabe quem é. Mas precisamos da política? Claro. Mas em última analise, como já escrevi no artigo anterior, precisamos de política no sentido estrito, que implica o Estado, enquanto organização política da sociedade, detendo ele o monopólio da violência, porque não somos todos éticos. Se todos fossemos éticos, no quadro de fazer-se bem moralmente a si próprio, não seria necessária a política, que ficava reduzida à administração das coisas. Só porque somos egoístas, interesseiros, corruptos e corruptores, é que temos necessidade do Estado para regular e gerir de modo não violento os conflitos. Somos, estou certo, uma gente muito frágil, pior do que isso, somos uma gente vulnerável que nestes últimos anos se foi perdendo e, de caminho, perdendo o pouco que tinha, e agora se descobre sem horizontes, de mãos vazias, sem defesas morais, psicológicas ou outras, a não ser a eterna resiliência perante a pobreza, pendor característico de um povo de sobreviventes. Até o sonho acabou, como se também sonhar nos fosse vedado. Durante estes últimos dias dei por mim a pensar: sentimento penoso este de pertencer a um país cujas prioridades não partilhamos. Esta semana tivemos um bom exemplo deste comprazimento mórbido. O debate – um autêntico circo entre dois candidatos a primeiro-ministro que se transformou num autêntico equívoco porque o futuro foi ignorado e o passado recente omitido. Depois de anos de chumbo e de resgate, precisando mais que nunca de debater as escolhas que tem pela frente, triste do país que pode reconduzir uma coligação governamental que nem precisa convencer – basta apenas sumir-se nas próximas semanas. Pelo que foi visto, “a maioria governamental liderada por Passos Coelho, quer sobreviver à conta da amnésia colectiva”, ignorando ou fazendo ignorar que a primeira das liberdades é a liberdade de dizer não! A culpa possivelmente será minha porque passei a vida a idealizar uma terra e uma gente que nunca existiram…
José A. Roque Martins