Tal como a maioria das pessoas, sempre pensei que dores ou problemas sérios na lombar eram coisas que os outros padeciam. Não eu. E de facto, assim foi até ao ano passado, quando num belo dia de inverno, a minha lombar entendeu ser hora de manifestar-se. Durantes duas longas e penosas semanas, tive saudades da minha condição de bípede. Logo vieram os diagnósticos. “O windsurf para si acabou!”; “Se não tiver cuidado, vai acabar numa cadeira de rodas...”; “Tem a certeza que quer continuar a fazer isso ao seu corpo?” Acredito que estes e muitos outros comentários, foram feitos com a melhor das intenções. Mas não era bem aquilo que queria ou precisava ouvir. Foi necessário o fisioterapeuta João Carvalho fazer-me uma lavagem cerebral e um simples desenhinho, para se fazer luz nesta cabecinha oca. Na realidade, ele já há mais de uma dezena de anos que tentava me explicar como era possível recuperar espaço inter-discal, hidratar os discos e, com isso, recuperar qualidade de vida. O problema não era certamente a mensagem nem o mensageiro. O leitor perguntar-se-á, legitimamente diga-se: “Tantos anos e não foi capaz de perceber?” Pois é. Mas é o que há. Já diz o ditado, mais vale tarde do que nunca! Foi preciso o tal desenhinho. Certo, certo, é que, um ano e meio volvido, não só recuperei qualidade de vida – acredite o leitor, já me havia mentalizado que teria de viver o resto dos meus dias, com aquela dor permanente na zona lombar – como pela primeira vez em muitos anos, posso me dar ao luxo de poder continuar a treinar e competir, com a mesma intensidade com que o fazia décadas atrás. Claro, para que tal pudesse ser uma realidade, foi preciso aplicar-me. Nos últimos nove meses, diariamente, trabalhei para isso. Persistência, regularidade e uma boa dose de fé, fizeram milagres. Foi um processo físico, mas também mental. Foi preciso desconstruir uma realidade que, a maioria, teimava em pintar negra. Naturalmente, nem tudo são rosas. Há dias bastante desconfortáveis, dada a carga a que sujeito diariamente aquela zona em particular. Mas isso também acontecia quando era adolescente. Pelo menos agora, tenho as ferramentas para efectuar uma correcta recuperação. Ferramentas estas, acessíveis a qualquer pessoa.
João Rodrigues Velejador olímpico