Segundo cantou Virgílio, na sua Eneida, os gregos pretendiam conquistar Troia que resistiu cerca de 10 anos. Então alteraram a estratégia e montaram um ardil! Construíram um cavalo em madeira, em cujo interior colocaram soldados. Depois abandonaram o cavalo na praia, às portas da cidade de Troia, retirando-se para a ilha de Tenedos, onde terão aguardado a chegada do momento oportuno para voltar à cidade desejada. Os troianos decidiram apropriar-se do cavalo e levá-lo para dentro da cidade. Em vão se debateu o sacerdote Lacoonte contra a apropriação do cavalo e muito menos a sua introdução dentro das muralhas da cidade. - Equi ne credite, Teucri! Quidiquid id est, timeo danos et dona ferentes! – (Não acrediteis no cavalo, troianos! Seja o que for, tenho medo dos gregos e das suas ofertas!) Mas a populaça ensandecida e desmiolada não foi capaz de entender a mensagem do iluminado sacerdote que acabou morto por duas serpentes a mando de Apolo, protector dos gregos. O interesse do mais forte oportunamente aliado à falta de ponderação da populaça acabou com as vozes incómodas dos que, vendo mais além, alertavam para os eminentes perigos daquela “oferta envenenada”. Os troianos “confiscaram” o cavalo abandonado e introduziram-no na cidade, em festa que se prolongou pela noite dentro. Mais tarde, pela calada da noite, com os troianos cansados e adormecidos, depois da euforia da suposta vitória alcançada, os soldados gregos, previamente escondidos no interior do cavalo de madeira, saíram e abriram os portões da cidade ao exército invasor. Vem esta citação a propósito do momento político actual. Há quatro anos atrás, o mesmo “grego” prometeu não aumentar impostos, não cortar as pensões, não cortar os subsídios de natal e de férias… Corria o ano da graça de 2011, quando ele disse: - Isso é um disparate! - Não será necessário, em Portugal, cortar mais salários, nem despedir gente. - Acusaram-nos de querer acabar com o IVA intermédio para a restauração. Que é absolutamente falso! - Se tiver de existir um ajustamento fiscal ainda, a minha garantia é de que ela seria canalizada para os impostos sobre o consumo e não para os impostos sobre o rendimento. Disse mais tarde. Também julgo oportuno lembrar o que nos foi “vendido” com a negociação com a troika. No âmbito do programa de assistência económica e financeira, entendia-se que o esforço financeiro proposto para a recuperação deveria ser distribuído em dois terços com o aumento de impostos e um terço com a redução “das gorduras do Estado”. E assim foi: aumentaram-nos os impostos em mais de 60%. Quanto às gorduras do Estado… os mesmos cidadãos que viram os impostos lhes serem acrescidos em mais de 60%, também viram os gastos com a saúde, educação, benefícios fiscais, a justiça, etc. lhes serem retirados dos rendimentos disponíveis. Bens essenciais dos cidadãos eram gorduras do Estado! Tendo em conta a experiência vivida nos últimos tempos, deixei de gostar dos “cavalos”, tal como Inês Pereira, na farsa do mesmo nome de Gil Vicente, “Por usar de siso mero, Asno que me leve quero, E não cavalo folão. Antes lebre que leão, Antes lavrador que Nero.” Por isso, como a nossa Constituição “obriga” a candidaturas através das máquinas partidárias, de há uns bons anos a esta parte, vou escolhendo, não os “cavalos”, mas sim as famílias menores, os “asnos” e os “póneis”. O quadro de valores, os interesses e os comportamentos dos grandes e elegantes “cavalos” estão cada vez mais distantes dos meus. Pelo contrário, os seus familiares “menores” são-me mais próximos. Por isso, antes asno que me leve que cavalo que me derrube!
Manuel Vieira