Quando o Papa Francisco fez um apelo para que todas as paróquias acolhessem uma família de refugiados, e dando o exemplo o Vaticano também o fez, julguei que os ânimos se iriam serenar em relação a esta questão. Afinal, a religião tem um grande peso na Madeira e a fé cristã incita-nos ao humanismo e a socorrer aqueles que atravessam grandes dificuldades. Mas, apesar dos apelos do Vaticano, para meu espanto, os ânimos continuam exaltados como se pode ler nas redes sociais e nos comentários que se fazem nos jornais. Muitos desses comentários estão a coberto do anonimato, mas há uma larga maioria que dá a cara. Quem tem funções públicas tem de compreender a sociedade em que vive, mas nas questões que têm a ver com a dignidade humana não pode nem deve vacilar, mesmo que isso resvale para a perda de votos e para a incompreensão de largos sectores da sociedade. Desde a primeira hora entendi que devemos acolher refugiados por uma questão de humanismo, mas se tal não bastasse, a isso estamos obrigados pelos acordos internacionais que Portugal assinou com a Europa (Convenção de Genebra de 1951). Aliás, não posso imaginar outra situação num País que se orgulha de Aristides de Sousa Mendes e outros tantos anónimos que acolheram refugiados de guerra em momentos críticos da nossa história, nas Guerras Mundiais. Contudo, não é alheio a esta discussão o processo de aculturação que a Madeira sofreu nas últimas quatro décadas. Durante todo este tempo o poder político da maioria teve momentos condenáveis onde instigou ódios contra os estrangeiros, contra os de fora, contra os “cubanos”, e também contra aqueles que eram diferentes, politicamente diferentes. A perseguição política, as afirmações de falta de solidariedade como no caso de Timor - toda a gente se lembra de “nem um tostão para Timor” -, as declarações contra os chineses e os indianos são alguns exemplos. Até o voto do egoísmo no referendo à regionalização onde defendemos a autonomia, mas só para nós, e recusamos a regionalização aos outros. Incompreensível tamanha falta de solidariedade, mas as consequências estão aí. Julguei que a catástrofe do 20 de Fevereiro e a solidariedade que tivemos de todo o País e de outras Nações, e de várias organizações, tivesse feito uma ruptura cultural e de mentalidades, mas vejo que ainda temos um longo caminho a percorrer.

Victor Freitas Deputado do PS na ALM