Deixou-nos no passado dia 22 de agosto de forma inesperada, o Dr. Jorge Mota, conceituado médico gastroenterologista do Porto, com 70 anos de idade. O Dr. Jorge Mota foi um importante colecionador de obras de arte, sobretudo relacionadas com o mundo da expansão portuguesa. Foi um amigo da Madeira e um verdadeiro apaixonado pelos nossos museus. Lembro-me muito bem das nossas conversas até tarde sobre a qualidade de muitas das peças das nossas coleções. Conheci-o no início de 2000, numa ida de um grupo de entusiastas de arte da expansão portuguesa, entre colecionadores, antiquários e estudiosos nacionais e alguns estrangeiros, a Vila Viçosa, para ver o Paço Ducal da Casa de Bragança. Nessas viajem levantou-se a possibilidade de se realizar uma exposição da coleção do Dr. Jorge Mota na Madeira, tendo por imediatos apoiantes o amigo comum, antiquário Jorge Welsh e a sua sócia Luiza Vinhais. Com a Dr.ª Teresa Pais, diretora do Museu Quinta das Cruzes, começámos a desenvolver esforços para tornar, o que parecia um desafio impossível, numa realidade concretizável. Do nosso lado, tivemos o entusiasmo do então Presidente da Câmara Municipal do Funchal, Dr. Miguel Albuquerque, e o apoio incondicional do então Comissário para as comemorações dos 500 anos da Cidade do Funchal, Prof. Virgílio Pereira, para além naturalmente da Direção Regional dos Assuntos Culturais. Foi possível assim concretizar o congresso internacional da Associação dos Amigos do Oriente entre 12 e 15 de Novembro de 2005, sobre o título: Portugal e o Mundo da Expansão- O Arquipélago da Madeira como primeira experiência atlântica, realizado no recentemente inaugurado edifício do Arquivo Regional da Madeira. Foram apresentadas comunicações do Dr. Nelson Veríssimo, Dr. João José Abreu de Sousa, pela Madeira, especialistas nacionais como Maria Helena Mendes Pinto, Fernando António Baptista Pereira, Maria Antónia Pinto de Matos, Rosa e Mário Varela Gomes, e ainda de alguns dos mais importantes especialistas internacionais como Ronald Fuchs II, do Winterthur Museum, Delaware, William Sargent do Peabody Museum em Salem dos U.S.A, ainda Ezio Bassani, Anemarie Jordan Gschwend, Gauvin Alexander Bailey e Amin Jaffer do Victoria & Albert Museum em Londres. Durante o congresso foram, para além de várias visitas guiadas pelo património do Funchal, inauguradas duas exposições com a apresentação pública dos respetivos catálogos: A Madeira nas Rotas do Oriente, no Museu de Arte Sacra do Funchal e Um Olhar do Porto, uma Coleção de Artes Decorativas, no Museu da Quinta das Cruzes e que hoje particularmente nos interessa. O Dr. Jorge Mota dispôs generosamente de cerca de 300 obras de arte, 196 entradas de catálogo, que durante cerca de seis meses estiveram fora de sua casa. Na coleção destaque-se o maravilhoso saleiro sapi-português, a coleção de madrepérolas Indo-portuguesas do século XVII, o mobiliário indo-português, os marfins de Goa e do Ceilão, o célebre contador do golfo de bengala, o cofre do Ceilão com as placas dos inacianos, a coleção Namban com o seu oratório de suspender, a porcelana chinesa de exportação centrada nas peças brasonadas portuguesas, os kendi e garrafas Kraak, as figuras e os animais, duas belas pinturas primitivas, um conjunto de móveis portugueses maioritariamente do século XVIII, a ourivesaria civil e religiosa portuguesa, os vidros, faianças e gravuras, que se enquadraram perfeitamente no contexto da exposição permanente do Museu da Quinta das Cruzes, estabelecendo com elas um diálogo notável. Em Portugal não é muito comum a constituição de coleções de arte por particulares ao longo da sua história, nem assertiva a forma como o estado ao longo dos tempos constitui critérios e estratégias para as coleções nacionais. Precisamos de todos os apaixonados pelas tradições e história das artes em Portugal, para uma melhor proteção do nosso património. Depois do dreno constante das coleções patrimoniais móveis desde o século XIX, para o estrangeiro, um conjunto de entusiastas das artes nacionais ou a elas relacionadas, sobretudo depois da década de oitenta do século XX, têm feito regressar a Portugal um conjunto notável de obras de arte. O Dr. Jorge Neves da Mota, faz parte desse lote estreito de entusiastas e conhecedores, no seu caso desde muito sedo, pela mão de seu pai, procurando sempre a peça que falta e daria finalmente sentido a tudo..... Não esquecerei o seu gesto para com a Madeira e os madeirenses, o seu entusiasmo, a sua fina ironia, graça repentista e paixão arrebatada pela portugalidade, pelo seu Porto. No texto do catálogo da sua exposição escreveu: (...) Com o evoluir do tempo a coleção toma uma lógica própria e autodetermina-se do seu arquitecto. Como numa fase avançada dos romances, em que as personagens criam vida própria e se sobrepõem ao escritor, também uma coleção de arte se torna independente e impõe a sua lógica ao aficionado (...) Só me resta dizer obrigado, bom amigo, até sempre.

Francisco Clode