O bárbaro homicídio ocorrido em Paris, na redação do semanário humorístico Charlie Hebdo, tem despoletado reações e sentimentos profundos. Foi, na atualidade, um rude golpe no coração da liberdade de expressão. Na Liberdade como um bem insofismável e universal. Na cidade de todas as crenças e permissões. O mundo alvoroçou. Na rua, uns são “charlie” e manifestaram-se aos milhões. Outros, também aos milhares, repudiaram as caricaturas do profeta Maomé. Outros, ainda que sendo “charlie”, apelaram ao bom senso e moderação na liberdade de imprensa. Contenção na opinião que possa ferir duramente as respeitáveis convicções religiosas dos fiéis. Sobretudo dos muçulmanos. Tudo porque a Liberdade encerra e protege um conjunto de valores que são preciosos para a civilização ocidental em particular. Valores, preciosos para nós, mas perigosos para outros. E o riso também pode ser um perigo. A questão é profunda e antiga. Durante séculos marcou também o cristianismo. Ou melhor, uma visão obscurantista defendida pelo radicalismo religioso da Europa feudal. Para perceber, basta revisitar, numa breve leitura, o romance histórico de Umberto Eco, “O Nome da Rosa”. Nessa empolgante narrativa, tipo policial, toda a trama desenrola-se num mosteiro medieval em tempos da bárbara e desumana Inquisição. Uma intriga em torno da investigação de uma série de crimes praticados no interior da abadia. O frade franciscano William de Baskerville, assessorado pelo noviço Adso de Melk, aprofunda investigações, apesar da resistência de alguns dos religiosos do local, até que desvenda que as causas do crime estavam ligadas à manutenção de uma biblioteca que escondia em segredo obras apócrifas, obras que não eram aceites pela igreja cristã da Idade Média. Entre elas, a mais perigosa, um livro atribuído, no romance, pelo autor, a Aristóteles e que versaria sobre o riso. Um livro sobre o riso, legitimando os atributos do humor, atribuído ao venerável mestre Aristóteles, constituía-se como um perigo incontornável pela visão temerária de Deus que os mais fundamentalistas religiosos queriam impor e manter na sociedade medieval de então. Daí a morte por homicídio de todos os que a ele queriam ter acesso. A morte de todos, por envenenamento, e a destruição apocalíptica do livro, num incendio da biblioteca e da abadia. Crimes executados por frei Jorge, um monge ancião, afetado pela cegueira que também era física, e fundamentalista. O riso que desafia Deus, o humor e a sua liberdade de expressão, foram sempre um perigo para o mundo das trevas. Paris e os cartoonistas do Charlie Hebdo foram apenas as suas vítimas mais recentes.
Emanuel Gomes Deputado