EHJ Os serviços de urgência são, de facto, o barómetro dos sistemas de saúde. De um modo geral, a sua elevada procura representa falência a montante, nos Cuidados de Saúde Primários, Cuidados Continuados (CC), Lares, Domicílios, etc. O recorrente excesso de doentes que lá permanecem significa disfuncionamento hospitalar e da rede de CC. Enfim, consequências de um sistema de saúde “patogénico” e demasiado medicocênctrico! Ninguém, no seu perfeito juízo, vai à urgência passear. Nem mesmo os rotulados de “não urgentes”... O cidadão comum (ou até mesmo o profissional), em situação, não sabe o que tal significa. As denominadas “falsas urgências” são por isso uma enorme falácia, reveladora de insensatez de quem as afirma. Tem sido frequente o descartar de responsabilidades, culpando o utente. Porém, demonstrativo da consideração que este lhes merece. Atente-se, por exemplo, às declarações públicas sobre a introdução da Triagem de Manchester e das Taxas Moderadoras (TM). Até 80% de “não urgentes”, pasme-se! Quando uma pessoa recorre à urgência já pagou anteriormente o serviço. Não tem por isso que ser novamente “taxada”. É certo que a maior parte dos utentes está isenta. É pobre. Mas também é certo que muitas carências existem entre os restantes, que ao protelarem a decisão de lá ir, correm o risco morrer ou de ficar incapacitados. E com que custos para os próprios, suas famílias, serviço de saúde e sociedade? A nossa jurisdição proíbe os co-pagamentos no momento da prestação de cuidados de saúde. Vai daí, os nossos governantes (re)inventaram as ultrapassadas TM, que face aos valores praticados, nalguns casos superiores aos preços no privado (adivinhe-se porquê), configuram pagamentos directos (ilegais), ainda que disfarçados. O raciocínio subjacente a esta nociva medida é demasiado simplista para que se deva aplicar a questões tão complexas e delicadas como as da saúde. Parte do princípio de que, se um dado bem for pago antecipadamente, existe tendência para o exagero no seu consumo. No caso das urgências, tal pode até certo ponto se verificar. Todavia, apenas numa ínfima percentagem de situações. Que nada mais representam do que a mera confirmação da regra. Além de que não são estes os utentes que lá permanecem dias a fio nos recantos e corredores. Na era das TIC seria muito fácil tais situações “estudar”. Para melhor intervir. E divulgar resultados. Mas a quem tal transparência aproveita?