Conceição Pereira Li uma “carta do leitor” da autoria do senhor Carlos Maciel, publicada no dia 15/ 2/2015 e fiquei perplexa. Geralmente, os grandes que fogem ao fisco não assumem que o fazem. Muito menos os que colocam milhões nos paraísos fiscais! “Nem às paredes confessam”! Segundo os últimos comentários televisivos que ouvi sobre o assunto fiquei a saber que muitos dos proprietários dessas fortunas pagam a “testas de ferro” que dão o nome às ditas contas, de modo que os nomes dos verdadeiros proprietários nunca venham a público. Aliás, até houve um político português que declarou que a conta que possuía na Suiça era de um sobrinho. Assim sendo, achei estranho que o senhor Carlos Maciel (será que é nome fictício?) venha dizer abertamente que fugir com o dinheiro para não pagar os impostos é muito justo. Isto é que é desfaçatez! E vai dizendo “só existem paraísos fiscais porque existem infernos fiscais”. E mais: “criou-se o mito que pagar impostos é um dever de todo o cidadão.” Eu digo melhor: pagar impostos é uma obrigação, porque ninguém paga de boa vontade, sobretudo quando vemos as nossas reformas e salários degradados para pagar a austeridade que a corrupção e a alta finança criaram. Voltando ao texto do senhor Carlos Maciel “muitos sectores da esquerda (sobretudo) acham que os ricos deviam pagar mais impostos...” Este senhor pensa que ainda se vive na Idade Média, no tempo em que os servos da gleba pagavam o dízimo à igreja e repartiam os produtos da terra com o senhor, trabalhavam de graça para o senhor, iam à guerra por conta do senhor, coziam o pão e pagavam ao forno do senhor... E o clero e a nobreza não pagavam nada a ninguém. E já agora, “esquerda” em política, tem a sua raiz na Assembleia Nacional Francesa, antes da revolução, em que os representantes do povo se sentavam à esquerda e a nobreza e o clero se sentavam à direita. Mas, voltando aos impostos, se os ricos têm o direito de não pagarem impostos, são os restantes cidadãos que os pagam, até porque não podem fugir, pois quando recebem os salários ou as reformas já lhes foram feitos os descontos e não poucas vezes as Finanças ainda vêm buscar mais um bocado. São estes, portanto, que sustentam a máquina do Estado, a construção de estradas para os ricos passearem com os seus carros de alta cilindrada, escolas e universidades para os filhos deles e muitas vezes ainda lhes pagamos as bolsas de estudo, porque nos documentos de IRS aparecem como pobrezinhos. Neste momento, todo o meu desejo é que se divulgue a lista dos senhores que têm contas nos paraísos fiscais para ficarmos a saber quem são os grandes ricos e como “ganharam” esses dinheiros. Quando o Bloco de Esquerda começou a condenar os paraísos fiscais foi um “Deus nos acuda”. Fomos atacados, sobretudo, por pessoas que às vezes nem têm dinheiro para pagar as suas contas. Ontem, ouvi o senhor Marques Mendes dizer na TV que os paraísos fiscais devem acabar, de modo a moralizar a política e a economia. O que não acredito é que ele defenda isso dentro do seu partido, o PSD. A família europeia onde eles estão filiados é acérrima defensora desta ordem económica mundial e por eles não haverá mudanças substanciais. Temos de ser nós, os que pagamos impostos e somos roubados no dia a dia por conta da austeridade que temos de unir esforços, como fizeram os gregos, e votar em partidos e pessoas honestas e com vontade de virar esta política do avesso. Vamos a isso! As eleições estão a chegar e não podemos perder esta oportunidade de virar a mesa ao contrário.