Relâmpagos e outros relampejos Poeta, inspirado sempre pela “Ode Marítima”, de Álvaro de Campos, sou uma espécie de marinheiro, mesmo quando em ancorada nau, velejo muito contra os ventos e as marés. Este navegar na contramão também me remete ao poema “O Albatroz”, de Charles de Baudelaire, em que o príncipe das nuvens, triste entre os homens, solta-se em voo alvo e exuberante por cima dos navios transatlânticos. Assim como nos versos de um outro poeta, Valentinous Velhinho, este patrício cabo-verdiano e da minha geração, de como os relâmpagos e outros relampejos nos acontecem em terra. Com assaz sentimentos e iluminuras poéticas, não me esquecendo de Luís Vaz de Camões, o vate no seu ápice, participei de um almoço confraternização (em verdade, de um almoço rotineiro) do Clube de Cavalheiros “Nau Sem Rumo”, na cidade do Funchal. Na ocasião, passadas as “liturgias” que as confrarias se impõem e que explicam a sua graça, idiossincrasia e longevidade (no caso, herdeiro direto das antigas Esquadras de Navegação Terrestres, este “Almirantado” ruma-se para o Centenário), pudemos falar da dimensão oceânica da Madeira e que a habilita novamente, tal como outrora no ciclo das Navegações Quinhentistas e subsequentes, a se reposicionar numa Nova Largada do Oceano Atlântico. E não havendo futuro sem passado, sussurrei, quiçá entre os ventos e as marés do futuro, que ora em terra clamam, as palavras camonianas: (...) Passámos a grande Ilha da Madeira, Que do muito arvoredo assi se chama; Das que nós povoámos a primeira, Mais célebre por nome que por fama. Mas, nem por ser do mundo a derradeira, Se lhe aventajam quantas Vénus ama; Antes, sendo esta sua, se esquecera De Cipro, Gnido, Pafos e Citera. III Guerra Mundial e a natureza do escândalo O prémio Nobel da Literatura, Günter Grass, que me marcou dos livros “O Tambor” e “Uma Longa História”, afirma estarmos hoje a viver a III Guerra Mundial.
Explica o romancista alemão que esta nova guerra distingue das anteriores por ser assimétrica, intermitente e profusa. O historiador inglês Eric Hobsbawm caraterizara o século XX como a era da guerra total, mas este século XXI se afirma claramente como a era da insegurança e da onda aleatória de guerras. As relações entre os Estados ficaram, depois do fim da Guerra Fria, mais complexas e novos imponderáveis passaram a exigir formas originais de exegese por parte da comunidade mundial. Conflitos resultantes de motivos nacionalistas, políticos, religiosos, xenófobos e tecnológicos (cibernéticos, como se infere), para além dos costumeiros geoestratégicos e económicos, especialmente “petrolíferos”, fazem parte do nosso dia-a-dia e ninguém, por mais ilusão de se estar na “zona de conforto”, estará livre dos seus efeitos. Penso nas vítimas – umas de naufrágio, outras de hipotermia – na trágica travessia do Mar Mediterrâneo daqueles que fogem da guerra, da fome e da pobreza e nos dramáticos termos do último relatório do Fórum Económico Mundial, apresentado em Davos, em que as 85 pessoas mais ricas do mundo detêm 46% de toda a riqueza produzida. São os novos “Condenados da Terra”, de Frantz Fanon, de que Jean-Paul Sartre, se vivo estivesse, poderia em recorrência inferir quão preciso ainda “percebermos a verdadeira natureza do escândalo”. Penso também nesta variável da desigualdade e da concentração de renda no mundo como mais um sério risco para esta III Guerra Mundial que, segundo Günter Grass, já começou.
Filinto Elísio