Vou estar sempre agradecido aos deuses do futebol, por ter crescido numa época em que tive o prazer de ver jogar, alguns dos melhores executantes que esta modalidade nos deu. A magia, o talento e a arte de jogadores como Maradona, Zidane, Ronaldinho Gaúcho ou Ronaldo, não me canso de referir, para mim, o melhor que vi jogar, fazia com que fizesse tudo para poder sentar-me e desfrutar de todo o encanto e beleza das suas performances, onde cada toque, cada gesto, e a forma ímpar e carinhosa com que tratavam a bola, elevavam um simples jogo, à mais pura demonstração de arte.

Denominador comum, o local onde em crianças, passavam os dias a jogar com o seu brinquedo favorito, a rua e a bola. Esta simbiose e contexto de grande dificuldade de execução, onde os buracos, as pedras e os obstáculos, testavam a habilidade e a destreza destes pequenos executantes, tornaram-se fundamentais na criação do seu ADN futebolístico. Definiam o campo, criavam as suas próprias regras, dividiam as equipas de forma, a que o equilíbrio fosse a nota dominante, e jogavam, jogavam, jogavam…

É verdade que os génios não se criam, acredito que haja uma predisposição genética para tal, agora, não será menos verdade, que em contextos favoráveis e com estímulos de qualidade, essa genialidade expressar-se-á ao mais alto nível.

Na minha opinião, tudo isto deve servir de reflexão, para quem trabalha nos escalões mais baixos da formação. Serão precisas, tantas regras, tanta informação, tanta ordem? As pessoas têm de compreender que nestas idades, as crianças para expressarem a sua criatividade, têm obrigatoriamente de ser individualistas, de se autodescobrir, de resolver os problemas, de decidir perante a imprevisibilidade, o que certamente contribuirá, entre outros, para o seu desenvolvimento motor, cognitivo ou sensorial.

Temo que a geração supramencionada não tenha deixado grande descendência, atualmente, apenas um número restrito de jogadores atuam ao nível dos seus “antepassados”, talvez Cristiano, Messi, ou Neymar, sejam os últimos dos Moicanos. Preocupa-me, que o futebol a que assistimos, cada vez mais pobre e sem brilho, seja cada vez mais controlado pela vertente financeira, onde a paixão foi substituída pela razão económica do negócio.

É importante ganhar, conseguir os títulos, enriquecer os palmarés e as contas bancárias, mas será assim tão importante ganhar, se ao corrermos para festejar os golos, não encontrarmos ninguém para festejar connosco?

Como Valdano disse certo dia, “quem trata bem a bola, trata bem os espetadores”.

Bruno Abreu