Na saúde, quando alguém apenas domina a arte do negÓcio é bom que a seu lado, alguém domine a arte de tratar os doentes Ainda estava o senhor ministro a convalescer de uma gripe que obrigou muitos doentes a esperar mais de vinte horas para serem atendidos na urgência e já a hepatite C, abrindo uma perigosa Caixa de Pandora, batia à porta do seu ministério a exigir milhares de euros por cada tratamento! Durante vários anos, Paulo Macedo conseguiu passar por entre os pingos da chuva e enquanto outros ministros se atolavam no inverno da austeridade, o ministro da saúde escapava à indignação de um país que valorizava as suas qualidades de bom gestor e até acreditava que os cortes que fazia regularmente na saúde só atingiam sabiamente as gorduras do nosso Sistema Nacional de Saúde. Mantendo uma relação discreta e simpática com a comunicação social, o seu tom de voz cordato e sereno sempre transmitiu uma tranquila segurança. E assim se instalou um estado de graça merecido! Mas o destino, talvez cansado deste ledo e doce romance, decidiu quebrar o espelho que refletia uma imagem sedutora e mostrar que os cuidados de saúde para alem da troika, tinham sido atingidos. E o destino de muitos doentes com gripe começou por fazer perguntas embaraçosas ao senhor ministro! Era esta gripe mais grave que as anteriores? Não! Este ano faltaram vacinas? Não! Houve mais doentes afetados ? Não! Aumentaram muito os atendimentos nas urgências por causa da gripe em comparação com os anos anteriores? Não! Então porque se instalou o caos nas urgências? A resposta é cinicamente linear. Faltavam camas nos hospitais para internar os doentes, faltavam profissionais nas urgências e faltavam consultas nos centros de saúde! E porque faltava tanta coisa? A resposta continua a ser linear. Durante os últimos anos, o senhor ministro mandou fechar camas para cortar nas gorduras e rapidamente passámos a ser um dos países da europa com menos camas por mil habitantes. Durante os últimos anos, o senhor ministro para cortar nas gorduras, mandou reduzir as equipas de urgência e as escalas demasiado emagrecidas tiveram que recorrer a jovens médicos ainda em formação. Durante os últimos anos, o senhor ministro para cortar nas gorduras, congelou a reforma dos cuidados primários e as Unidades de Saúde Familiar ficaram a meio do caminho. Se não há camas nos hospitais para internar os doentes da urgência, estes ficam em macas espalhadas pelos corredores como se um cenário de guerra justificasse o caos! Se não há profissionais suficientes nas equipas de urgência e a sua diferenciação é escassa, o tempo de espera chega obviamente a mais de vinte horas! Se não há consultas disponíveis nos centros de saúde o recurso à urgência hospitalar é a única solução! Assim se foi construindo, ao longo destes últimos anos, a tempestade perfeita que se abateu sobre os doentes que este ano, como todos os anos, tiveram a sua gripe. Alguém devia ter dito ao senhor ministro, que quando se gere a saúde nos limites mínimos, a rutura que até pode matar, surge implacável sempre que a doença estica levemente a corda. Alguém devia ter dito ao senhor ministro que quando se gere a saúde abaixo dos limites exigidos pelas boas práticas, estamos a cuidar mal dos nossos doentes e a destruir a confiança no nosso SNS. Ajuda muito, mas não basta ser um bom gestor, competente nas contas, hábil no negócio e sério nos compromissos. Não basta ser um bom financeiro a equilibrar orçamentos e a reduzir a despesa. Na saúde, quando alguém apenas domina a arte do negócio, é bom que a seu lado, alguém domine a arte de tratar os doentes. É que o nosso bem-estar não está cotado na bolsa, os mercados que tudo decidem estão apenas preocupados em vender submarinos e medicamentos de trinta mil euros e os doentes não são apenas números de uma estatística. E será que um excelente cobrador de impostos que à solta se sente confortável entre números, se sente confortável e confiante à solta… entre doentes? Manuel de Brito
Na saúde, quando alguém apenas domina a arte do negÓcio é bom que a seu lado, alguém domine a arte de tratar os doentes
Ainda estava o senhor ministro a convalescer de uma gripe que obrigou muitos doentes a esperar mais de vinte horas para serem atendidos na urgência e já a hepatite C, abrindo uma perigosa Caixa de Pandora, batia à porta do seu ministério a exigir milhares de euros por cada tratamento!
Durante vários anos, Paulo Macedo conseguiu passar por entre os pingos da chuva e enquanto outros ministros se atolavam no inverno da austeridade, o ministro da saúde escapava à indignação de um país que valorizava as suas qualidades de bom gestor e até acreditava que os cortes que fazia regularmente na saúde só atingiam sabiamente as gorduras do nosso Sistema Nacional de Saúde.
Mantendo uma relação discreta e simpática com a comunicação social, o seu tom de voz cordato e sereno sempre transmitiu uma tranquila segurança.
E assim se instalou um estado de graça merecido!
Mas o destino, talvez cansado deste ledo e doce romance, decidiu quebrar o espelho que refletia uma imagem sedutora e mostrar que os cuidados de saúde para alem da troika, tinham sido atingidos.
E o destino de muitos doentes com gripe começou por fazer perguntas embaraçosas ao senhor ministro! Era esta gripe mais grave que as anteriores? Não! Este ano faltaram vacinas? Não! Houve mais doentes afetados ? Não! Aumentaram muito os atendimentos nas urgências por causa da gripe em comparação com os anos anteriores? Não!
Então porque se instalou o caos nas urgências?
A resposta é cinicamente linear. Faltavam camas nos hospitais para internar os doentes, faltavam profissionais nas urgências e faltavam consultas nos centros de saúde!
E porque faltava tanta coisa?
A resposta continua a ser linear. Durante os últimos anos, o senhor ministro mandou fechar camas para cortar nas gorduras e rapidamente passámos a ser um dos países da europa com menos camas por mil habitantes.
Durante os últimos anos, o senhor ministro para cortar nas gorduras, mandou reduzir as equipas de urgência e as escalas demasiado emagrecidas tiveram que recorrer a jovens médicos ainda em formação.
Durante os últimos anos, o senhor ministro para cortar nas gorduras, congelou a reforma dos cuidados primários e as Unidades de Saúde Familiar ficaram a meio do caminho.
Se não há camas nos hospitais para internar os doentes da urgência, estes ficam em macas espalhadas pelos corredores como se um cenário de guerra justificasse o caos!
Se não há profissionais suficientes nas equipas de urgência e a sua diferenciação é escassa, o tempo de espera chega obviamente a mais de vinte horas!
Se não há consultas disponíveis nos centros de saúde o recurso à urgência hospitalar é a única solução!
Assim se foi construindo, ao longo destes últimos anos, a tempestade perfeita que se abateu sobre os doentes que este ano, como todos os anos, tiveram a sua gripe. Alguém devia ter dito ao senhor ministro, que quando se gere a saúde nos limites mínimos, a rutura que até pode matar, surge implacável sempre que a doença estica levemente a corda.
Alguém devia ter dito ao senhor ministro que quando se gere a saúde abaixo dos limites exigidos pelas boas práticas, estamos a cuidar mal dos nossos doentes e a destruir a confiança no nosso SNS.
Ajuda muito, mas não basta ser um bom gestor, competente nas contas, hábil no negócio e sério nos compromissos. Não basta ser um bom financeiro a equilibrar orçamentos e a reduzir a despesa.
Na saúde, quando alguém apenas domina a arte do negócio, é bom que a seu lado, alguém domine a arte de tratar os doentes.
É que o nosso bem-estar não está cotado na bolsa, os mercados que tudo decidem estão apenas preocupados em vender submarinos e medicamentos de trinta mil euros e os doentes não são apenas números de uma estatística.
E será que um excelente cobrador de impostos que à solta se sente confortável entre números, se sente confortável e confiante à solta… entre doentes?
Manuel de Brito