1. Estamos já a meio do mês de fevereiro do novo ano e, quase diariamente, temos sido bombardeados por notícias pavorosas, muitas delas na sequência do aumento dos atos terroristas que se vêm alastrando ao Velho Continente. Por cá e se por enquanto ainda não somos alvo de atos selváticos de grupos fundamentalistas e podemos circular livremente nas ruas, deparamo-nos com outros dramas que nos recordam a cada minuto o país frágil e desprotegido que temos. O caos vivido nas urgências hospitalares, que provocaram mortes, pondo a nu um sistema cada vez menos humano e indigno, é talvez o exemplo mais perturbante da falência de um Estado que deveria dar resposta eficiente e adequada na doença dos seus cidadãos. Choca os relatos de idosos abandonados à sua sorte num corredor, na espera infernal a que são submetidos, em que apenas uma pulseira com uma cor atribuída numa triagem breve determina a sua sorte no atendimento de um serviço de urgência. Para além deste tormento, que se agudiza com o envelhecimento da população, ficámos a saber recentemente que existem mais de 2 milhões de pobres no país, que auferem menos de 411 euros/mês. A estatística fria diz-nos que os mais castigados foram precisamente os mais desprotegidos: os desempregados, as crianças e os precários. Os números da Madeira, que desconheço, não devem andar muito longe da realidade nacional. O desemprego, por outro lado, parou nos 15% e abrangia, em dezembro de 2014, 22 mil pessoas na Região. Muito mais exemplos poderia descrever porque e como diz sabiamente o povo “uma desgraça nunca vem só”. Infelizmente o país não tem conseguido dar a uma franja muito substancial da sua população uma vida condigna, nestes últimos anos. O modelo de governação assente na austeridade desembocou nesta realidade crua. Temos assistido passivamente ao desmoronar do estado social e dos direitos básicos dos cidadãos, salvaguardados constitucionalmente. Até quando, não sabemos. Mas sente-se um cansaço acentuado nas pessoas face às políticas seguidas pelos partidos tradicionais, que lhes têm trazido miséria e desamparo. A receita dos denominados partidos do arco da governação está esgotada. Veja-se o que aconteceu na Grécia, por exemplo. É esta uma parte substancial do quotidiano que nos invade e que nos faz refletir. Precisamos de respostas à altura, não para se acabar com todas as injustiças e males deste mundo, mas para devolver a dignidade (mínima que seja) a que todos os seres humanos têm direito, para que não se morra de fome nem abandonado num corredor de um qualquer hospital. 2. A Madeira debate-se com uma série de problemas estruturais. Para além do desemprego alto, enfrenta graves dificuldades no serviço de saúde e de proteção aos mais carenciados. É esta Região falida, presa a um Plano de Ajustamento Económico Financeiro que castiga duplamente os seu habitantes, que vai a votos no próximo dia 29 de março. O que será relevante na hora de colocar a cruz no boletim de voto? O que vai levar o eleitorado a depositar confiança num determinado partido? Qual deles oferece as melhores, as mais sensatas propostas e o projeto de maior equilíbrio governativo? De um lado está o PSD/M, livre de Jardim, mas ainda amarrado à política desenvolvida nas últimas décadas, que definhou sem honra nem glória, refém do programa de resgaste que impôs o garrote à população. Do outro surge uma coligação improvável de partidos, liderada pelo PS, que uma vez mais não ousou vislumbrar uma solução robusta para chegar ao poder. Não conseguiu sequer gizar uma estratégia em redor de um candidato forte e ficou-se pela dupla Victor Freitas/José Manuel Coelho... Por fim aparece o CDS, a segunda maior força partidária da Região, que tem a matéria estudada, uma estratégia organizada e uma boa comunicação. Terá a força e uma máquina capaz para convencer os descontentes e chamar os que se têm mantido à margem? A voz vai ser dada ao povo para que decida o governo dos próximos quatro anos. Até lá que exista pedagogia e não se caia na famigerada tentação de prometer o que não se pode, depois, cumprir.
Roberto Ferreira