Tenho uma filha que vive e trabalha em Londres e, nessa qualidade, em conversa tida recentemente, disse-me que esteve a analisar CV`s (curricula) de candidatos à própria empresa onde trabalha, na área da consultoria. E, de imediato, perguntei-lhe o que achava do conteúdo desses CV`s em comparação com o dos portugueses, ao mesmo nível. A resposta foi pronta, os CV`s dos ingleses, com ensino superior equivalente, são muito mais «ricos», em termos de evidenciar várias experiências vividas, além da componente académica. Com efeito, qualquer candidato que se apresentava a concurso tinha trabalhado intercaladamente nalgum período da sua aprendizagem educativa, tinha participado em acções de voluntariado diverso ou tinha dinamizado grupos com afinidades comuns (seniores, imigrantes, etc.). No fundo, as empresas inglesas dão muito valor às actividades extra-curriculares desenvolvidas pelo interessado como forma de avaliar as suas qualidades humanas (as empresas são pessoas que interagem no dia a dia em busca de um objectivo comum) e profissionais (capacidade de liderança, de organização, de inovação, de trabalhar em equipa, etc.). E nós, aqui, em Portugal, seguimos o mesmo modelo? Temo que não, porque não é, ou não tem sido essa, a nossa cultura, antes contentamo-nos em ter um «canudo» e pensamos que basta! Infelizmente, já não é bem assim, porque a procura de trabalho (ou de emprego?) suplanta largamente a oferta e obriga a uma maior competição entre as candidaturas em presença. Ou seja, as escolhas iniciais são já muito selectivas e a evolução na empresa, ou na organização, é feita muito na base do mérito, reconhecido pelos dirigentes e pelos próprios «pares». Não somos todos iguais, é verdade, mas sabemos todos fazer bem alguma coisa, e é nisso que devemos empenhar-nos. Fará sentido falar neste tema aqui, na Madeira, onde é comum o recém-licenciado assumir cargos para que não esteve naturalmente preparado, e quantas vezes com acesso directo a chefias que exigiriam noutras latitudes, naturalmente, competência técnica, mas também, alguma experiência, por forma a conferir maior eficiência e eficácia á sua actuação na organização? Então, porque não fazê-lo? Porque o que importa aqui não é «fazer bem as coisas certas» (o que deve ser feito) mas agradar ao chefe, no caso, pelo menos até hoje, «ao único». Foram tempos passados, dir-se-á, mas o que dizer do aparente unanimismo à volta do candidato do partido actualmente no poder que só pode significar que algumas pessoas rapidamente se acomodam ao novo poder instituído para manter enquadramentos profissionais ou de interesses que se manifestam mais pela «fidelidade» a quem manda do que pelo mérito próprio, tão caro aos ingleses, que mencionei. Será que quem governa não pensa que, por via disso, um mau chefe, ou um director inadequado para uma determinada função, vai gerir com menos eficácia, e, portanto com custos sociais acrescidos (e, naturalmente, com uma produtividade inferior á dos ingleses, no exemplo em causa) a coisa pública, e certamente também a privada? Uma aposta na meritocracia parece ser o caminho a seguir em termos de gestão de recursos humanos para atingir o sucesso de uma empresa ou de uma organização, em oposição ao desempenho baseado apenas na idade ou no alinhamento com o statu quo, sem contestação e «sem fazer ondas». Caminhemos então por aí, mesmo devagarinho, é sempre melhor.

Nuno Jardim Fernandes Gestor