“Diz-me, se puderes, o que é a coragem?” Platão A crise que vivemos, já o disse, não é, em particular, uma crise económica. É, acima de tudo, uma crise social e moral. É a crise do modelo europeu até agora dominante na Europa e é o produto de um erro. O mercadismo, a redução ideológica do homem no mercado – existo para consumir, consumo e, logo existo -, assenta de facto, a sua essência, num calculo demasiado sintético, um calculo que tem vindo a demonstrar ser errado. Para não persistir no erro, não é suficiente dizer que, agora, ao mercado se deve “somar” a política. Não seria suficiente este exercício porque, até agora, o mercado foi, e é ele próprio, a força política prevalente e, precisamente, o mercado detém ainda a quase totalidade do monopólio cultural e material do presente. Enquanto isso acontecer, existirá, por conseguinte, espaço apenas para o mercado e não para a política. Por outro lado, a única politica aplicável é uma política alternativa ao mercadismo, que não a austeridade, e para aplica-la torna-se necessária uma “filosofia” política diferente, uma filosofia que nos leve a transitar do primado da economia para o primado da política. Torna-se necessário uma alavanca que – como todas as alavancas – para funcionar deve, no entanto, ter um ponto de suporte. Tal ponto pode ser um único: o das “raízes”, as “raízes judaico-cristãs” da Europa. Não se pode, por conseguinte, iniciar um novo rumo partindo da economia – dos “valores segundos” – mas dos “valores primários” de uma nova ordem moral. E aqui temos que lembrar que a austeridade não é um princípio fundador da União Europeia. Uma nova ordem moral acarreta, na realidade, consigo, e naturalmente, também progresso económico, mas sem uma nova ordem moral existem apenas declínio geral e conflito social. De facto, hoje, a vida não é feita apenas de política organizada, como, pelo contrário, na sua ilusória pretensão o ambicionava a política do seculo XX. É muito mais plural, é feita também de razão e de fé, de história, de tradição e de cultura. É por esta razão que o código que devemos e podemos fabricar para sobreviver poderá ser criado apenas com a combinação de dois conceitos essenciais, que são, ao mesmo tempo, antiquíssimos e novíssimos: “identidade”, “valores”. Identidade e valores são as duas faces da mesma moeda. A identidade é feita de valores, os valores fazem a identidade. Ao longo da história, todas as comunidades assentam e encontram, de facto, a sua identidade na prevalência dos seus valores. Por outro lado, na época que estamos a viver a questão fundamental na Europa, é, efetivamente, a questão do poder. Os povos requerem e os governos não têm suficiente poder para responder às suas necessidades. E é precisamente esta assimetria entre as exigências e as respostas que corrói de um modo progressivo as bases da política, que abre espaço à antipolítica e, por essa via, há antidemocracia. Atualmente, está em curso uma revisão da questão do poder, mas em termos opostos. O problema não é, hoje, na verdade, o de salvaguardar a democracia através da limitação e do controlo dos poderes dos governos. Pelo contrário, o problema da democracia é o de consolidar e aumentar o poder dos governos, na procura de um novo equilíbrio político entre a importância das necessidades dos povos e a capacidade por parte dos governos de satisfazer essas necessidades. É, portanto, exatamente nestes termos que se coloca, hoje, o problema do poder dos governos. Não nos termos erróneos de uma restauração autocrática, mas, pelo contrário, nos devidos termos da conservação democrática, para salvaguarda da democracia. É precisamente este mecanismo fundamental que está a entrar em crise na Europa e que deve, por isso mesmo, ser restabelecido. Quando assistimos, no início deste ano, à “Tragédia Grega” com as suas consequências em todo o espaço europeu e, de certo modo perplexos, olhamos para o que vai acontecendo no nosso pais não podemos deixar de preconizar, melhor, exigir, uma coesão interna na Europa que permita o renascer da esperança para os seus cidadãos. Temos que dizer, alto e bom som, que não pode existir um projeto comum se não existir unanimidade quanto aos propósitos, se não existir perseverança para os alcançar. Haja coragem…

Roque Martins