Já não é muito frequente ouvir a expressão “ando a carregar cascalho” quando se quer referir a um assunto em que se anda a pensar há vários dias. É mais ou menos como “ando a macacar em …”. Foi num dia destes, típicos de inverno, com algum frio e muita humidade, que no meio de uma conversa acerca de sementeiras, podas e enxertias - o que indicia que dentro em breve se iniciará um novo ciclo vegetativo na agricultura - que alguém se saiu com esta expressão. Pelas noites frias que se tem feito sentir pelo Norte, segundo o Manuel, um dos patriarcas da zona, será um bom ano para as fruteiras, nomeadamente macieiras, ameixeiras, cerejeiras, etc. Talvez não tão bom para as laranjeiras. E a propósito deste tempo de preparação de terrenos para sementeiras, como já vai sendo hábito nos últimos tempos, um brincalhão começa a fazer comparações entre a agricultura e a política, e sai-se com esta: - Há tanto tempo que ando a carregar cascalho para ver quem vai pegar nas ferramentas... - Quais ferramentas? - pergunta o Manuel - Ó homem as canetas do Governo. Parece que o terreno já está limpo e já começaram a tirar regos para novas plantações. O que vão semear ou plantar não faço ideia, espero que primeiro adubem bem a terra com estrume bem curtido, seja de vaca, de porco ou cabra (se for galinha é preciso ter cuidado) e que as sementes sejam de boa qualidade. - Olha - diz o brincalhão - e não te esqueças de uma coisa: nunca plantar a mesma coisa dois anos arrei (seguidos) no mesmo terreno. Como dizia o meu avô, é sempre bom ir buscar a semente a outro lado. Ele ia todos os anos de S. Vicente ao Porto Moniz mercar (comprar) semilhas americanas para plantar. - Já sei onde queres chegar com essa conversa! Estás a falar das eleições! Mas para isso é preciso que o pessoal ponha as semilhas noutro rego. E se for semilhas, estás com sorte. Três meses depois já tens colheita. Mas se for inhame ou castanheiros vais esperar mais uns tempos para apanhar alguma coisa.

Joel Freitas Empresário