Há dias, conversando com alunos do 12º ano da Jaime Moniz a propósito de dois livros, «O Ano da morte de Ricardo Reis» e o «Memorial do Convento», perguntou-me um deles se ser filha de quem sou foi um incentivo para escrever. Com sinceridade, disse-lhe que não: pelo peso que tem, pela marca que imprime, pelo que antecipa ou sugere pode, até certo ponto, ser um desincentivo. Para além da inevitável tentação para comparações, há outra razão muito marcante e que é a desconfiança, mais ou menos evidente, no olhar que se projecta sobre nós e que deixa no ar a suspeita de que o uso do nome é ‘o’ cartão-de-visita. Mas muito mais que o apelido que temos, o que verdadeiramente precisamos de saber é quem realmente somos e no que nos tornamos. Quando o soubermos, talvez possamos chegar a escrever de forma inteira e absoluta o nosso nome e atrever-nos, então, a entrar por domínios que, de alguma maneira, sigam as pegadas dos nossos pais. Esta conversa simples e de certo modo pessoal impôs, para que não nos fiquemos pela contemplação do umbigo, um ‘salto’ para a inevitável necessidade de cada um procurar o seu caminho e a sua identidade, enfim, Ser – que a vida exige respostas a problemas difíceis e impõe escolhas. E temos que ser nós, e mais ninguém, a decidir ir pelo sim ou pelo não, dizer ou ficar calado, levantar a cabeça ou ajoelhar, submeter-se ou recusar. É fácil? Não, é difícil. Mas, também, a vida só é fácil para pouquíssima gente! Pergunta-se o leitor o que é que me deu. Porquê estas considerações, aliás tão pouco ao meu jeito? É que tudo isto nos leva a outro ‘salto’ muitíssimo mais importante, em especial nesta altura em que há quem queira que os direitos humanos desapareçam para dar lugar ao ’direito’ dos poderosos, quem deseje criar um mundo sem valores nem princípios, um mundo em que a política seja trocada pelas regras da concorrência, da fraude e da especulação e a democracia seja substituída por poderes não eleitos. Por isso, é impossível deixar de pensar no que se está a passar na Europa onde – mesmo que à custa da paz – povos e nações são objecto de jogos de interesses e manipulações aparentemente financeiras. Nos últimos anos, tudo na nossa vida colectiva está sujeito à vontade dos ‘mercados’, expressão ‘enfática’ para especuladores e corruptos que não dão a cara, mas que querem que todos percamos dignidade, vivamos no limite e, em última análise, rastejemos, quando a necessidade for demasiada. Que assumamos não temos outro caminho senão a miséria e a decadência; e, pior ainda, que do nosso dia-a-dia devem fazer parte a submissão, a degradação, a humilhação. Querem, simplesmente, que esqueçamos quem somos, que cultivemos a ausência de respeito e a falta de identidade. E que se formos bem comportados e exemplares, poderemos ter a remota esperança de que, ao passar, os poderosos se dignem acenar-nos com uma cenoura, antes de nos açoitar outra vez. E quando tal não acontece, quando os espezinhados se endireitam, é um terramoto - como acontece agora, depois das eleições na Grécia. Não sei o que vai acontecer nem à Grécia nem à Europa, mas sei que a empatia e o acolhimento que o governo grego provoca, não resultam da cor da camisa de Tsipras nem da aparente descontração de Varoufakis. Pela primeira vez desde há demasiado tempo, vemos um governo eleito a contestar de forma frontal e sem equívocos o ‘inevitável’ caminho da austeridade, a obrigar que a discussão política substitua a contabilidade de burocratas, a falar de pessoas e não de números. Pela primeira vez, e não estávamos habituados, vemos um governo eleito que nos ‘obriga’ a pensar: no que nos tornámos, no caminho por onde vamos e o que queremos ser; se nos deixamos abater pela apatia ou se combatemos o desespero e o medo, se continuamos de joelhos ou se queremos levantar a cabeça. Se nos deixamos perder na falta de identidade colectiva ou se, com dignidade, honramos o nosso nome. Se Vivemos, em lugar de sobrevivermos. Se Somos, em vez de nos deixarmos levar. Até onde me trouxe uma ‘simples’ pergunta de um jovem aluno do 12º ano! Pelos caminhos que me obrigou a percorrer só lhe posso agradecer.

Violante Saramago Matos