Desembarcou há uma semana. Carregava uma mochila. Puxava uma mala. Vestia um sorriso confiante ou, pelo menos, descontraído, como se o país não estivesse a esvaziar-se de dia para dia, de noite para noite, como se o país não estivesse a perder os anéis e os dedos ou parte deles. Vão para perto quase todos os que embarcam, embora pareça que vão para longe. Oitenta a oitenta e cinco por cento escolhem a Europa. Instalam-se no Reino Unido tantos, tantos. O resto do mundo cabe quase todo em Angola e em Moçambique. O Brasil, de que tanto se fala, é só um por cento. Ele veio de longe, se é que ainda se pode usar a palavra longe. Vêm de longe muitos dos que fazem o movimento inverso. Trouxe memória de “boas e calorosas experiências com portugueses”, que o convidaram para casa. E gosto pela proximidade do oceano, pelo clima, pela música, pela gastronomia, pelos vinhos – os da Madeira mais do os de qualquer outro lugar. Não conhece o discurso dos que embarcam onde ele ainda agora desembarcou. Não sabe quanto pesa a frustração de quem tantas vezes semeou e não colheu aqui, onde ele quer semear e colher. Agrada-lhe esta postura progressista e tradicional. Impressiona-o a História de que o povo se orgulha e se envergonha. Quer aprender a língua, que se ouve em tantas partes, ora fechada, ora aberta, ora lenta, ora rápida, ora cantada, ora aqui e ali emudecida. E admira-se com a proximidade que as pessoas se permitem ter. “Cada vez que conheço uma rapariga beija-me duas vezes. Gosto disso. Nos EUA, dás um aperto de mão. As pessoas têm outra noção de distância.” Sim, conhece a situação económica. Sabe ser por ela que muitos embarcam onde ele desembarcou, alguns para desembarcar onde ele embarcou. “Percebo que será um desafio, mas acho que vou conseguir”, diz sem despir aquele sorriso confiante ou, pelo menos, descontraído, como se o país não estivesse a esvaziar-se de dia para dia, de noite para noite, como se o país não estivesse a perder os anéis e os dedos ou parte deles. Talvez tenha um segredo. Talvez seja uma luz. “Lux perpetua”.
Ana Cristina Pereira Jornalista do Público