A extrema-direita não venceu em França mas quase deitou por terra o que ainda sobra dos valores da revolução de 1789. Ficou o susto da primeira volta das regionais francesas. O desenho político europeu vacila por entre perigosos caminhos de demagogia e populismo. Não podemos, todavia, dizer que faltaram os avisos. Na Hungria, Holanda, Suécia (a tolerante Suécia), Finlândia, Áustria, Dinamarca ou Grécia. Foram demasiados os avisos. Mesmo no Parlamento Europeu, onde a extrema-direita conseguiu constituir-se em grupo parlamentar. Mesmo do lado de lá do Atlântico, de onde a mensagem do medo nos chega de forma anedótica por Donald Trump. Mas ainda não foi desta que em França a Frente Nacional chegou ao poder. Hesitei ao escrever este “ainda não”. Mas não nos livrámos do susto e do arrepio na espinha. Valeu a mobilização democrática e republicana de última hora. Valeu a cedência socialista e o “voto útil no mal menor””. Não se tratou, portanto, de uma vitória. A Frente Nacional conta com 6.5 milhões de votos e está no restrito clube dos três grandes de França. Poucos dirão que votaram nela. Mas foram 6.5 milhões de votos num partido fascista na França civilizada. Socialistas e Republicanos sublinharam a importância de ouvir realmente os eleitores e ir ao encontro das suas necessidades. “Aos que não foram votar e já não acreditam, devemos provar-lhes que a política não vai voltar a ser como era”, disse Manuel Valls, Primeiro-Ministro francês. Com as atenções postas nas presidenciais de 2017, não parece que a mudança esteja para breve. Nenhum partido de centro, mais à esquerda ou à direita, se mostrou imune ao avanço do populismo e da xenofobia. Portugal é uma das honrosas excepções numa Europa onde muitos sentem desespero e raiva face a políticas austeras incapazes de dar resposta aos problemas concretos das pessoas. Uma Europa onde muitos se indignam face ao clima de suspeição que paira sobre grande parte da classe política e a descredibiliza. Quando os cidadãos são colocados de parte e não são esclarecidos sobre as decisões tomadas, quando não participam no processo, então é mais difícil resistir aos chavões populistas. A Frente Nacional conseguiu mobilizar pelo ódio e pela demagogia, usando a crise económica como arma. É todo um modelo político que entra em falência. Os princípios que ajudavam a sustentar a União Europeia, e que constituem a sua essência, estão a ruir e mais não fazemos que colocar frágeis remendos. Reagimos sempre às circunstâncias, como agora em França. Isso não basta. É preciso voltar aos fundamentos. Por agora foi o susto. Aproveitemo-lo. O receio pode ser positivo, se nos despertar da apatia. Aproveitemos para mudarmos de paradigma, para encontrarmos líderes que pensem a longo prazo, bem para além do económico, do financeiro, da folha Excel e da volatilidade e frieza das suas previsões. Aproveitemos agora. Para que o susto não se torne algo maior.
Liliana Rodrigues, Deputada do PS no Parlamento Europeu