Como eram bons os almoços de Natal das nossas infâncias, com toda a família “O que quer dizer carácter”? A pergunta feita à queima-roupa pelo meu amigo Rodrigo, de 7 anos, não me permitiu uma resposta imediata e direta, até porque, naquele instante, conversávamos sobre um assunto que não englobava a palavra que despertou a sua curiosidade súbita. Mas as crianças são mesmo assim. Quando menos se espera soltam uma pergunta, que pode ser mais ou menos embaraçosa, com maior ou menor grau de dificuldade, até inoportuna, mas sempre com algum sentido objectivo. Depois de ter respondido ao Rodrigo dei por mim a remoer na definição daquela palavra – carácter – nos valores que encerra e na sua tradução prática nos dias que correm. Estamos no mês do Natal, no mês da Festa e da família. Num momento que convida à reflexão, não apenas connosco e com os nossos, mas com o Mundo, com as pessoas, com a civilização. E é aí que nos deparamos com muita miséria e muitos motivos de preocupação. Observamos, há tempo demais, movimentos de refugiados que fogem do conflito armado e da miséria da guerra, Europa adentro, atónitos, cansados, estropiados, despojados de bens, com fome de tudo. Vêm à sua sorte, com esperança, em “comboios” de gente que nos faz lembrar as grandes migrações provocadas pelas duas grandes guerras mundiais do século XX. Olhamos para aquelas imagens dolorosamente recorrentes na televisão e questionamo-nos: para onde vamos? Que queremos para o nosso futuro? Que tipo de Mundo estamos a permitir que se edifique? Que civilização é esta que (ainda) permite que crianças inocentes deem à costa, mortas, numa qualquer costa europeia, ao tentarem fugir dos massacres que grassam nos seus países? Num plano paralelo, vimo-nos confrontados com bárbaros ataques terroristas, no coração da Europa. Numa cobardia sem fim, eliminam-se inocentes e criva-se de insegurança o quotidiano de milhões de pessoas, que de nada vale para extremistas cegos e perturbados. Há, nisto tudo, uma manifesta falta de respeito pela vida, uma marginalidade de valores. Se, por enquanto, ainda não nos deparamos com atos terroristas dentro de portas, assistimos também a outro tipo de “terror”, não menos despiciendo, silencioso. O da desigualdade social, do abandono dos velhos, da indiferença pela desgraça alheia, na típica justificação egoísta de nos importarmos apenas pelo que se passa “dentro da nossa casa”. Onde entra aqui a palavra que tanta curiosidade suscitou ao amigo Rodrigo? Onde pára o nosso carácter? Natal é tempo de alegria, de partilha e de misericórdia. Como há dias questionava Frei Bento Domingues numa das suas peculiares homilias, a um dos meninos que o ajuda na eucaristia: “O que é misericórdia”?. Resposta sem hesitações do pequeno: “É preocuparmo-nos com os outros, respondermos com o coração”. Simples e oportuno. Num tempo em que se privilegia em demasia o supérfluo em detrimento das relações interpessoais, numa época em que se prioriza o consumo desenfreado de quase tudo, onde ficam as coisas simples da vida, como uma refeição serena, contemplativa, onde o diálogo assume o papel central e não a mensagem que cai no telemóvel ou a atualização permanente e doentia do feed do Facebook? Como eram bons e deliciosos os almoços de Natal das nossas infâncias, com toda a família reunida à volta da mesa... Com alguma ingenuidade à mistura, desculpável pela magia típica desta quadra, permitam-me desejar que prolifere mais carácter e mais misericórdia em 2016. Nota: segundo o dicionário da Academia de Ciências de Lisboa ter “carácter” é ser “honrado, sério e incapaz de faltar à palavra”. O dicionário Priberam complementa: “qualidade distintiva, firmeza, dignidade (...)”. Roberto Ferreira

Como eram bons os almoços de Natal das nossas infâncias, com toda a família

“O que quer dizer carácter”? A pergunta feita à queima-roupa pelo meu amigo Rodrigo, de 7 anos, não me permitiu uma resposta imediata e direta, até porque, naquele instante, conversávamos sobre um assunto que não englobava a palavra que despertou a sua curiosidade súbita. Mas as crianças são mesmo assim. Quando menos se espera soltam uma pergunta, que pode ser mais ou menos embaraçosa, com maior ou menor grau de dificuldade, até inoportuna, mas sempre com algum sentido objectivo. Depois de ter respondido ao Rodrigo dei por mim a remoer na definição daquela palavra – carácter – nos valores que encerra e na sua tradução prática nos dias que correm. Estamos no mês do Natal, no mês da Festa e da família. Num momento que convida à reflexão, não apenas connosco e com os nossos, mas com o Mundo, com as pessoas, com a civilização. E é aí que nos deparamos com muita miséria e muitos motivos de preocupação. Observamos, há tempo demais, movimentos de refugiados que fogem do conflito armado e da miséria da guerra, Europa adentro, atónitos, cansados, estropiados, despojados de bens, com fome de tudo. Vêm à sua sorte, com esperança, em “comboios” de gente que nos faz lembrar as grandes migrações provocadas pelas duas grandes guerras mundiais do século XX. Olhamos para aquelas imagens dolorosamente recorrentes na televisão e questionamo-nos: para onde vamos? Que queremos para o nosso futuro? Que tipo de Mundo estamos a permitir que se edifique? Que civilização é esta que (ainda) permite que crianças inocentes deem à costa, mortas, numa qualquer costa europeia, ao tentarem fugir dos massacres que grassam nos seus países? Num plano paralelo, vimo-nos confrontados com bárbaros ataques terroristas, no coração da Europa. Numa cobardia sem fim, eliminam-se inocentes e criva-se de insegurança o quotidiano de milhões de pessoas, que de nada vale para extremistas cegos e perturbados. Há, nisto tudo, uma manifesta falta de respeito pela vida, uma marginalidade de valores. Se, por enquanto, ainda não nos deparamos com atos terroristas dentro de portas, assistimos também a outro tipo de “terror”, não menos despiciendo, silencioso. O da desigualdade social, do abandono dos velhos, da indiferença pela desgraça alheia, na típica justificação egoísta de nos importarmos apenas pelo que se passa “dentro da nossa casa”. Onde entra aqui a palavra que tanta curiosidade suscitou ao amigo Rodrigo? Onde pára o nosso carácter? Natal é tempo de alegria, de partilha e de misericórdia. Como há dias questionava Frei Bento Domingues numa das suas peculiares homilias, a um dos meninos que o ajuda na eucaristia: “O que é misericórdia”?. Resposta sem hesitações do pequeno: “É preocuparmo-nos com os outros, respondermos com o coração”. Simples e oportuno. Num tempo em que se privilegia em demasia o supérfluo em detrimento das relações interpessoais, numa época em que se prioriza o consumo desenfreado de quase tudo, onde ficam as coisas simples da vida, como uma refeição serena, contemplativa, onde o diálogo assume o papel central e não a mensagem que cai no telemóvel ou a atualização permanente e doentia do feed do Facebook? Como eram bons e deliciosos os almoços de Natal das nossas infâncias, com toda a família reunida à volta da mesa... Com alguma ingenuidade à mistura, desculpável pela magia típica desta quadra, permitam-me desejar que prolifere mais carácter e mais misericórdia em 2016. Nota: segundo o dicionário da Academia de Ciências de Lisboa ter “carácter” é ser “honrado, sério e incapaz de faltar à palavra”. O dicionário Priberam complementa: “qualidade distintiva, firmeza, dignidade (...)”.

Roberto Ferreira