A lagosta é um animal de consistência mole que vive dentro duma concha, uma espécie de armadura, que o protegerá dos seus predadores. À medida que a lagosta cresce, vai-se sentido crescentemente desconfortável e cada vez mais apertada. Começa a sentir uma pressão e desconforto que ditarão o que fazer no seu futuro próximo. O que acaba por acontecer é que, uma vez que a tal armadura não cresce na mesma medida do crescimento do seu corpo, a lagosta é obrigada a livrar-se da concha rígida antiga e a criar outra com um tamanho que a acomode e a proteja. Vai para debaixo duma rocha, mais uma vez, para realizar o processo à revelia dos seus predadores. Eventualmente, um dia mais tarde, essa nova concha tornar-se-á também pequena e o processo será repetido tantas vezes quanto a lagosta achar necessário ao longo da sua vida. O estímulo para a lagosta crescer e que implica que ela largue a concha velha e a substitua por outra maior é o facto de se sentir desconfortável e confinada a um espaço que já não a comporta. Se as lagostas pudessem negar esse sentimento de confinamento e de alguma maneira ultrapassar essas dores, nunca cresceriam. Poderiam consultar os médicos “lagostos” que lhes prescreveriam umas pilulas anti-stress e umas de “tira-dores”. A lagosta acomodar-se-ia e não desencadeava o processo de crescimento, que envolve todo o trabalho de largar a concha antiga e de criar uma nova e esperar que esta crie consistência. As lagostas são sem dúvida animais estranhos. Para se exprimirem, urinam nas caras umas das outras. Têm dois estômagos (Deus devia tê-las contemplado com uma moela) e são canibais. Amputam membros do próprio corpo sem dificuldade se disso depender a sua sobrevivência. Estes membros voltam depois com o tempo a crescer. As fêmeas lagosta podem carregar o esperma dos machos que escolherem, durante dois anos antes de decidir usa-los. São portanto também dum calculismo exacerbado que podemos chamar também de Planeamento familiar à moda antiga. Resumindo, o desconforto que a lagosta sente e a sensação de confinamento, são o que desencadeia o seu progresso e crescimento e lhe garantem o sucesso e maior longevidade. Veremos se existem razões para contar com lagostas e pôr o champanhe no frigorífico ou se teremos que nos contentar com as habituais e mais que vulgares lapas (Patella vulgata). E podia contar-lhes a longa e antiga história duma patella vulgata que resolveu não mudar e se fixar com toda a força a uma rocha velha que depois foi moída numa britadeira e a areia daí resultante, usada para fazer um poço de lavar à moda antiga . Mas isso fica para outro dia. Talvez.

Nuno Drummond