A superstição e a religião andaram sempre de mãos dadas em todos os tempos e sociedades. Os povos, mesmo os que acreditam em Deus, sempre pediram auxílio às forças ocultas. As mezinhas, benzeduras e os amuletos subsistiram até aos nossos dias. Todavia, são muitas as recomendações bíblicas contra a superstição no sentido de que nada é feito fora do controlo soberano de Deus (por ex.: Atos dos Apóstolos 4, 28, Efésios 1, 10-11; Deuteronómio 18, 10:12). Na vida dos pescadores aquela miscelânea entre religião e superstição é particularmente visível, como se vê nesta simples história. Azar dos Diabos Nos anos de sessenta do século XX, no Calhau da Lapa, Campanário, um pequeno barco de pesca navegava em maré de azar. Durante várias semanas, nada pescou, apesar da muita labuta. Depois de muito praguejarem a sua sorte, os pescadores acabaram por pescar um peixe estranho, provavelmente seria um “peixe-boi” ou, como lhe chamaram os pescadores, o “peixe do Diabo”, porque nunca tinha sido visto nestas bandas. Por isso, deitaram-no de volta ao mar. Ao aproximar da costa, viram uma mulher estranha na vereda atrás do ilhéu. Ao subirem a rocha apanharam um susto: No local onde tinham visto a mulher só encontraram pegadas de cabrito. O Diabo, de certeza, andava a persegui-los. Maior azar não podiam ter nessa altura. Benzedura e promessa Um dos pescadores, no dia seguinte, levou uns cornos de cabrito, que afixou na proa do barco, enquanto fazia benzedura com um ramo de alecrim para afastar o mau-olhado. Outro pescador fez orações e uma promessa a Nossa Senhora do Bom Despacho: Caso tivessem sorte na pesca, na altura da festa iria na procissão descalço e com um círio na mão. Por coincidência ou não, o certo é que, na semana seguinte, o mesmo barco pescou muito peixe até mais não poder. Tal como o azar pode suceder à sorte, esta pode, também, surgir depois do azar. Foi o que aconteceu. Dilema - Valeu a pena colocar os cornos de cabrito e benzer o barco com o alecrim! - pensaram alguns dos pescadores. Outro, porém, agradeceu a Nossa Senhora do Bom Despacho por ter ouvido as suas orações. Na altura da festa, lá cumpriu a sua promessa com a maior fé do mundo. Afinal, o que é que deu sorte aos pescadores: Os cornos de cabrito e a benzedura de alecrim ou a promessa a Nossa Senhora? Para os pescadores é indiferente saber se a sorte veio dos cornos ou de Nossa Senhora. O que interessa é que tiveram sorte. Nos negócios de ventura até o Diabo é bem-vindo ou, como também se diz: nem tudo o que o Diabo faz é reprovado por Deus! (Baseado no conto “Peixe do Diabo” do livro “Deus me faça feliz”, Editora O Liberal, 2013)

João Luís Gonçalves