Quintus Fabius Maximus. Segunda guerra púnica. Aníbal percorria a península itálica, socorrendo-se dos seus temíveis elefantes para aterrorizar Roma e os seus aliados. Atravessara os Alpes e agora, parecia ter rédea solta para marchar sobre aquela que se converteria, em breve, na maior potencia do mundo antigo, e numa das maiores que a História já conheceu. Nomeado ditador pelo senado, a Quintus competia ir ao encontro de Aníbal e derrota-lo. Mas ele foi mais inteligente. Durante um ano, percebendo que o tempo é sempre o maior aliado da razão e conhecendo as intrigas palacianas que minavam o seu caminho, contribuindo decisivamente para a superioridade militar do general cartaginês, seguiu as hordas invasoras, evitando a luta que lhe seria desfavorável e que seria, sobretudo, fatal para a república. Fez Aníbal sentir-se cercado, acossado. Não lhe deu espaço nem liberdade de movimentos. Impacientes, desejosos de deitar mão a eventuais despojos, os velhos senadores procuraram outras soluções. Terminado o seu período como ditador, o nosso herói foi substituído pelos cônsules Gêmino e Régulo e, posteriormente, por Lúcio Paulo e Caio Varrão (Varro). Os últimos, apressados, buscando a glória imediata, que é tantas vezes efémera, lançaram-se contra Aníbal e em Canas, conduziram o glorioso exército de Roma a uma das suas maiores derrotas de sempre. Quintus foi então reabilitado, tendo a cidade, finalmente, percebido a sua importância e a forma como inteligentemente a protegera. “Delenda est Carthago”, gritou Catão, no senado, até à destruição final do rival. Fê-lo depois de Cipião, o Africano. Mas fê-lo, sobretudo, depois de Quintus ensinar ao nascente império as virtudes da paciência. Quintus Fabius Maximus não seria, nos tempos de hoje, uma celebridade instantânea, construída nas redes sociais. Seria, pelo contrário, alguém a quem o tempo daria a razão primordial. Alguém que provaria que é necessário esperar, sempre, pelo momento certo, que é aquele em que os deuses, mesmo os deuses pagãos, se convertem à virtude e à razão. “Amat victoria curam”(1), diziam os latinos. E estavam tão certos que, imagine-se, construíram o maior império do mundo, percebendo também que “copia sermonis non est consors rationis” (2), mesmo que por interposta(s) pessoa(s). 1 – A vitória ama a cautela. 2 – Quem mais grita não é quem tem mais razão.

Gonçalo Santos