A minha filha, que vive em Londres, pretendia interessar alguns colegas, uns a viver em Londres, outros em Lisboa, a virem á Madeira partilhar com ela o Fim-do-Ano, que para ela, naturalmente, é único no seu esplendor, entusiasmo e alegria colectiva. Disse-me isso em finais de Setembro passado mas decorridos alguns dias telefona-me alarmada porque estavam todos a recusar o «convite» porque o preço das passagens (já nessa data!) estava a rondar os 700/800 euros para partidas de Londres e 500 euros a partir de Lisboa, o que tornava proibitiva a opção Madeira face a outros destinos concorrentes.

Alarmada porquê?

Não será para menos dados os preços de outros destinos, até mais distantes, á venda no mercado inglês. O jogo da oferta e da procura não resultou em preços tão irrazoáveis em anos anteriores (embora tenham sido sempre mais elevados) para a mesma época e o mesmo destino. Porque subiram então este ano os preços médios das viagens para a Madeira, não só via TAP, como em outras companhias que servem o destino com carácter regular?

É legítimo pensar que a solução de mobilidade entre o Funchal e Lisboa resultou na «garantia» de pagamento pelo Estado da diferença entre os 86,00€ que paga o residente e o valor máximo que o Estado comporta (400,00€) podendo levar as companhias a fazer tender o preço para esse tecto máximo, tanto mais que é previsível que os residentes façam mais viagens a esse preço e nem sempre por razões socialmente válidas (consulta ou exame médico, por ex.). E, havendo mais viagens de residentes, há mais lugares ocupados no avião, logo, diminui a oferta de lugares disponíveis no mercado, mantendo-se, depreende-se, a pressão da procura.

Ou seja, as companhias vendo garantido um «load factor» a bom preço podem atingir mais rapidamente o «ponto crítico das vendas» da operação em concreto e tudo o que vier acima é ganho líquido, ainda que «overpriced». Um maná!

Então será legitimo concluir que há um efeito perverso na implementação de uma medida que pode fazer sentido nalgumas situações de apoio social ou formativo (doença, estudantes, etc.), mas não em todas, porque pode afectar o tráfego turístico individual de clientes «directos» ameaçando as unidades hoteleiras para quem esse segmento de mercado é relevante. E, escusado será dizer quão importante é o turismo para a Região, como sabemos.

Mas, já alguém pensou nisso?

É certo que para as unidades que dependem essencialmente dos operadores turísticos com «packages», que incluem o seu próprio transporte, a questão não se põe mas para os pequenos hotéis, sobretudo urbanos, e até grandes com alguma clientela directa, a questão pode colocar-se. É dar com uma mão e tirar com a outra! Li, a este propósito um destes dias, que a TAP irá realizar mais 72 voos para os Açores e a Madeira no período em causa, mas quem nos garante que quem procurava o destino Madeira para a data referida não desistiu já, e procurou uma solução alternativa mais vantajosa e assim perdeu-se um cliente em definitivo? No caso em apreço foi o que aconteceu…

Por isso, quando estamos tão preocupados com um problema de tesouraria criado com a solução de mobilidade adoptada (e que apesar de tudo já sofreu um aligeiramento) não será mais preocupante para a Madeira o eventual efeito perverso de uma medida que na prática vem em favor das companhias aéreas que perante uma oferta mais rígida podem fazer aumentar o preço médio da viagem para o Funchal, porque contam estar numa situação de procura idêntica, ou até, em crescimento? Mas, aqui, pode perguntar-se, até quando?

Nuno Jardim Fernandes