Para que, em 2003, ficasse concluído o longo processo de retirada do gado solto nas serras da Madeira, gado que mantinha muitas das nossas montanhas completamente peladas e sujeitas à erosão, a colaboração voluntária dos proprietários desse mesmo gado foi fundamental. Não só aceitaram que o gado fosse retirado como colaboraram ativamente nesse mesmo processo, reunindo o gado e entregando-o para abate. Para além do facto da atividade não ter expressão económica para os envolvidos e alguns já se sentirem velhos para andar nas serras atrás de cabras e ovelhas, a atribuição de um subsídio muito generoso por cada cabeça de gado, com a faculdade de levarem a carcaça do animal para casa, convenceu os mais indecisos. Arrumado que está o problema centenário do gado bravio nas serras da Madeira, abre-se agora caminho para dar atenção e resolver outras ameaças antigas que afetam a floresta madeirense, em particular os incêndios e as espécies invasoras. No entanto, passada mais de uma década desde a conclusão da retirada do gado bravio, vem agora um grupo de cidadãos, autodenominado de “pastores”, exigir o seu regresso às serras.
Agora que vamos comemorar os 600 anos do descobrimento da Madeira é conveniente recordar que a nossa floresta evoluiu ao longo de milhões de anos sem a presença de um único ruminante ou de outro qualquer mamífero herbívoro. Foram os primeiros povoadores que trouxeram cabras, ovelhas e porcos e os soltaram nas serras da Madeira. Para termos ideia de como este gado proliferou e dos problemas que causou logo nas primeiras décadas de povoamento basta atender ao que consta nas cartas do Infante D. Henrique que dão posse das capitanias de Machico (1440) e do Funchal (1450) a Tristão Vaz e João Gonçalves Zarco, respetivamente.
Passado apenas 20 anos do descobrimento, o Infante D. Henrique escreve assim “…me praz que os gados bravos possam matar os da ilha…”. Ou seja, num tempo em que as diferenças entre classes eram abismais, o Infante D. Henrique, há quase 600 anos, dava autorização para que qualquer habitante pudesse matar o gado bravio que se encontrava solto nas serras. Tal generosidade só pode ser entendida com a necessidade de atenuar um problema que já então se fazia sentir, os estragos feitos pelo gado.
Um pouco mais tarde, em 1492, D. Manuel I, antes de ser rei e na condição de Governador da Ordem de Cristo, manda construir currais na serra para prevenir os prejuízos provocados nas zonas mais invadidas pelo gado. No primeiro século de povoamento da Madeira o gado bravio evidenciou-se como uma problema pela destruição que provocava nas serras. Nos séculos seguintes o excesso de gado solto nas serras, juntamente com os incêndios e o fabrico de carvão vegetal, arrasou por completo a floresta na costa sul da ilha e no topo das montanhas. À medida que a floresta foi desaparecendo, as cheias rápidas que hoje tão bem conhecemos foram fazendo parte do quotidiano da sociedade madeirense, provocando avultados prejuízos e a perda de largas centenas de vidas humanas. Em 1804, em carta régia, D. João VI reconhece que as pesadas consequências da aluvião de 9 de Outubro de 1803, com largas centenas de mortes, resultou da “total destruição das preciosas matas que consolidavam a superfície” da ilha. E é neste contexto que pergunto: queremos andar para trás?
Hélder Spínola