Continuando o tema do Tridente do Mar, o nome que damos no Clube Naval ao conjunto de infraestruturas de apoio à náutica de recreio na baía do Funchal, mais especificamente São Lázaro, a Marina do Funchal e o espelho de água da Praça do Povo hoje vou escrever sobre São Lázaro. O Clube Naval está umbilicalmente interligado a São Lázaro, local escolhido em 1953 para posto náutico por localizar-se numa zona abrigada do Porto do Funchal. A realização da I Regata Lisboa – Madeira, a maior regata oceânica com organização portuguesa, veio a ser o fator determinante para o aparecimento em 1952 do Clube Naval do Funchal, dada a necessidade de haver na Madeira um Clube que organizasse regatas.
A comissão administrativa do Naval, seria constituída a partir da tripulação do barco vencedor, o Albatroz, e por autoridades locais, como o capitão do Porto, o diretor da Junta Autónoma dos Portos para além de um representante dos iatistas e donos de barcos com base em São Lázaro. Após ter funcionado provisoriamente na sala do Tribunal Marítimo da Capitania do Porto do Funchal, em 1953, começou a construção das primeiras instalações em São Lázaro, feitas em madeira, para que os sócios pudessem ai ter as suas embarcações. No acesso ao mar, foi feita uma rampa sobre calhaus e um “caís” de desembarque, na época o melhor acesso ao mar para os desportistas náuticos locais e visitantes. O Clube tratou logo de comprar uma canoa e contratou um trabalhador marítimo para transportar os seus associados entre o cais do CNF às suas embarcações fundeadas na baia do Funchal, bem como fazia a receção dos visitantes estrangeiros que chegavam em veleiros. Em 1965 os acessos ao mar e as instalações do Clube passaram de madeira a betão, mantendo-se a receção aos iatistas que chegavam à Madeira, servindo o clube muitas vezes como posto de correio para estes passantes.
Este espaço do Naval, foi desde cedo um pólo dinamizador e centralizador dos desportos náuticos desde a vela ligeira (snipe, cadetes, lusitos), a pesca à linha e submarina, esqui aquático, a motonáutica, zona de construção, manutenção e reparação de barcos de recreio, atraindo ainda diversos eventos, caso do I Festival de Motonáutica e Esqui Aquático. Desde a sua génese, o CNF prestou sempre de forma singular apoio a todos os iatistas e eventos desportivos náuticos que aconteciam na RAM e com o desenrolar dos anos, o clube foi crescendo em atividades e número de praticantes. Com a reconversão do Porto do Funchal e mais recentemente com as obras da Ribeira de São João, dotaram São Lázaro de uma das maiores e melhores rampas de acesso ao mar do país, com acesso a espelho de água bem protegido dentro do porto do Funchal, onde não falta um pontão (propriedade da Marina do Funchal) de apoio às atividades náuticas adaptadas.
No entanto, toda esta mudança foi e está a ser feita, sem que os utentes residentes de São Lázaro, em altura alguma tenham sido ouvidos por forma a ajudarem e elucidarem das verdadeiras necessidades que esta face reconversão irá propiciar. Esta falta de sensibilidade que vinha de trás, pensávamos que tinha terminado, mas este meu desabafo, acontece na medida em que se poderia reduzir custos e rentabilizar meios lá existentes para que São Lázaro seja um pólo náutico de excelência de formação, mas também de eventos desportivos náuticos de todo o mundo. A cidade do Funchal possui uma frente mar limitada, pelo que é de extrema importância a compatibilização de usos e a ocupação exclusiva por edificações e atividades ligadas ao elemento preponderante, que é o mar. Deveria ser só para atividades náuticas, portuárias, de turismo costeiro, de desportos náuticos e mesmo para a, mera fruição ou contemplação do Mar, através de um planeamento integrado, de uma visão de conjunto, e não a manta de retalhos que se verifica atualmente. E nem quero acreditar nos rumores de entrega de espaços em São Lázaro a clubes de futebol, por muito respeito que tenho por todas as coletividades, pois os Clubes e Associações náuticas residentes em São Lázaro, ficaram com espaços mais reduzidos em relação ao que tinham. Apesar de achar que todos tem direito a procurar o seu caminho e o seu horizonte, esse direito tem que ser conquistado pelo trabalho realizado no âmbito a que o espaço está destinado, ou seja a atividades ligadas ao Mar. Há ainda que assegurar espaços livres para uma futura ampliação da atividade náutica, uma vez que o mercado europeu da náutica de recreio tem apresentado uma taxa de crescimento anual média de 10%.
A finalizar, gostaria de lançar o repto, se queremos que o Funchal seja uma cidade de Mar e de turismo náutico, temos de criar massa crítica, englobando atores públicos e privados. Um exemplo de possíveis passos a dar foi dado na apresentação de Duarte Lynce de Faria dos Portos de Setúbal, no “IV Congresso Internacional O Desporto e o Mar”, onde ouvimos um exemplo que está a ser implementado em Setúbal, uma cidade que reabilitou a sua frente ribeirinha, através de um protocolo com a Câmara Municipal de Setúbal. Na área ribeirinha urbana sob jurisdição portuária os projetos são elaborados em articulação com a Câmara Municipal de Setúbal com base no programa de ação territorial. Uma vez que os Portos não têm vocação para gerir marinas ou parques náuticos desportivos, a sugestão é que a gestão de São Lázaro seja feita por uma entidade como a Marina do Funchal ou outra alternativa credível e exequível com know-how e vocacionada para o efeito, para gerir São Lázaro associando os desportos náuticos às empresas marítimo-turísticas. Tal como Setúbal também gostaria que o porto do Funchal fosse “Um porto internacional, aberto ao mar, ao desporto náutico, ao turismo, à pesca e ao serviço da Região e do País”. Dá que pensar…
Mafalda Freitas