Perante a dimensão do horror, de um grau semelhante ao do 11 de Setembro ou do massacre da universidade do Quénia e de muitos outros atentados hediondos, é quase ridículo emitir opinião, escrever teorias e ter certezas sobre os crimes em França. Barbárie é igual em todo o lado, seja qual for a forma em que se apresente.

Percebe-se que a primeira reacção da maioria seja recuperar a milenar e proporcionalmente estúpida Lei de Talião e gritar 'matar', 'esfolar', 'executar', 'expulsar'. À bruta, sem pensar e com tanta bestialidade como a das bestas que cometeram aqueles crimes. Não vale a pena pedir para parar, respirar e pensar.

Não vale a pena dizer que os assassinos eram, na maioria, franceses, filhos de franceses e que, por isso, fechar as fronteiras só tem como objectivo impedir que fujam.

De nada serve dizer que a esmagadora maioria dos refugiados que chegam às portas da Europa fogem de atrocidades exactamente iguais à que presenciámos na sexta-feira. Que nos pedem que sejamos decentes e solidários como aquela porteira portuguesa de Paris que acolheu mais de 40 vítimas do tiroteio. Pedem-nos que sejamos pessoas.

Também é certo que, como disse Ramalho Eanes, aqui na sua condição de militar e operacional experimentado, que é necessário eliminar de vez o estupidamente auto-proclamada estado islâmico e que, também de forma estúpida, a maioria da comunicação social de que faço parte evita chamar pelos seus verdadeiros nomes: terroristas, assassinos e criminosos. Não defendem nada, não representam ninguém, por isso é anedótico chamar-lhes outra coisa. Estão em guerra contra a Humanidade, mas essa não é uma guerra santa.

Mas também de nada serve tentar explicar que para acabar com esta insanidade - que nasceu de outras insanidades protagonizadas por um mundo ocidental que vive num grande jogo de computador e se desumanizou – será preciso mandar tropas para o terreno. Leia-se, mandar rapazes nossos vizinhos combater monstros e morrer. É esse o preço de qualquer guerra, porque nenhuma foi ganha, até hoje, só com bombardeamentos.

Também de nada serve tentar explicar que o terrorismo, sempre que foi combatido com sucesso, só foi travado pelas polícias e serviços secretos. Foi assim com os Baader-Meinhof, na Alemanha ou com as Brigadas Vermelhas, em Itália. Nunca com a tropa nas ruas. Essa é a forma mais perigosa de lidar com o problema. A tropa não está preparada para isso, dispara porque é treinada para tal e acaba, sempre, por atingir mais inocentes do que culpados. É um preço impossível de pagar.

De nada serve explicar que, numa democracia – o único modelo decente de se viver - não é possível 'expulsar' cidadãos nacionais, nem impedir que tenham opinião, por mais estapafúrdia que seja. Nem sequer é possível proibir os jogos e filmes sanguinários que os pais permitem que os filhos tenham e os transformem em seres sem emoções e totalmente desprovidos de humanidade. Nem sequer é possível 'expulsar' esses pais. Nem quando o filho vai jogar para o estado islâmico.

De pouco serve explicar que o terror não tem nacionalidade nem raça. Antes destes crimes, o mais brutal, na Europa, tinha sido cometido por um norueguês branco, loiro e de extrema-direita.

Por isso, só se pode pedir a todos os que colocam aquela bandeira esbatida por cima da suas fotos no facebook que pensem um segundo antes de escrever as barbaridades que aparecem por baixo. E aos outros, que leiam, por alguns segundos, as coisas em que estão a colocar os seus 'likes'. Só por alguns segundos, em memória dos que morreram.