Já ouvi muitas vezes esta expressão ou ditado popular “o que não há, se escusa” aplicada nas mais variadas circunstâncias e ocasiões. Por exemplo, a Mãe, quando o almoço ou jantar não era aquilo que ela gostava de nos dar, quando lhe faltava um ingrediente qualquer, como ovos ou semilhas. Não sei se para pedir desculpa - embora sem razão para isso, pois como todas as mães fazia sempre o melhor - ou para nos contentar dizia-nos: “o que não há, se escusa”.

Mas, se em muitos casos as coisas realmente funcionam ou se resolvem com a falta de um qualquer elemento que à partida fazia parte da receita ou da solução, há ocasiões em que se torna tudo mais difícil e resolver o problema da falta de um ou outro ingrediente, por mais simples que possa parecer, é complicado.

É, por exemplo, o que se verifica aqui no Norte com a desertificação. Falta de gente e faltam soluções para contrariar essa tendência. Por isso, o ditado terá de ser o inverso: não há e faz muita falta.

Numa destas tardes solarengas de outono, numa das principais estradas de S. Vicente, cruzei-me com o José e depois do cumprimento normal, diz-me ele muito depressa:

- Já venho a pé da vila para cima e é a primeira pessoa que encontro... Isto tem uns 2km?

- Olha! Também venho de casa e só vi uma pessoa no Cascalho, andava na levada nova!

E acrescenta o José:

- No meu sítio, se porco se soltar não há ninguém para me ajudar a apanhá-lo. Isto está a ficar mesmo sem ninguém.

Mas se aqui no Norte há pouca gente, já nem dá para apanhar um animal que resolveu sair da prisão para ir dar um passeio. Parece que no resto da ilha e do país, para não falar da Europa, as coisas não estão melhores… Dizem que há mais gente, mas pelo que se vê também não há ninguém capaz para tomar conta do leme ou do volante do carro e levá-lo até á garagem sem que os passageiros fiquem enjoados.

É mais um dos casos em que o ditado não pode ser aplicado, antes pelo contrário: não há, mas é preciso com urgência bons “condutores”. Caso contrário, qualquer dia o carro vai dar uma vregalhada e explodir, e lá vai tudo pelas canas dentro, passageiros e manobradores. “Não há!, mas precisam-se verdadeiros líderes”.

Joel Freitas