Iniciamos, recentemente, um novo ano letivo. É um novo ciclo, cujos protagonistas são as crianças e os jovens, e não menos importantes, as escolas, mas que só podem funcionar se tiverem professores e funcionários. A estes, juntam-se também os pais e encarregados de educação - primeiros educadores. A todos damos o nome de Comunidade Educativa, pois é disso que se trata; uma verdadeira comunidade em que todos são chamados a dar o seu contributo para o sucesso educativo, isto é, o segredo para o êxito das próximas gerações. Há uns anos a esta parte assistimos em toda a Europa, e de forma mais persistente em Portugal, a uma preocupação em avaliar os alunos e as escolas apenas em algumas disciplinas, como se todas não fizessem parte de um todo, quando se pretende a sua formação holística. Em nosso entender, estas medidas podem ser preocupantes porque se insiste em aumentar, cada vez mais, o número de horas naquelas disciplinas, à custa do emagrecimento ou até desaparecimento de outras que têm a mesma importância do ponto de vista formativo. Falo das disciplinas artísticas. Por vezes ficamos com a sensação de que os decisores políticos entendem estas áreas da educação como um “ramalhete”, apenas para “decorar” o currículo, esquecendo que desde os povos antigos até aos mais recentes pedagogos educacionais, é comum defender-se que as Artes devem estar no centro da Educação. De entre as inúmeras valências que as artes encerram, têm a faculdade de proporcionar momentos de criação de uma forma privilegiada. Segundo Vygotsky, “se consideramos que a criação consiste, no verdadeiro sentido psicológico, em fazer algo novo, é fácil chegar à conclusão de que todos podemos criar em maior ou menor grau e que a criação é acompanhante normal e permanente do desenvolvimento infantil.” Por outro lado, a Lei de Bases do Sistema Educativo consagra as disciplinas artísticas, em três modelos distintos: curricular; complemento curricular e extraescolar. Em nosso entender, nenhum é mais importante do que outro, mas antes complementares. Na RAM, e ao longo de 35 anos, graças ao apoio governamental, foi possível aplicar esta Lei, o que não aconteceu, integralmente no resto do País. Os resultados estão à vista de todos e hoje, a RAM, neste âmbito, é um case study nacional e internacional com artigos publicados em revistas científicas e apresentações em congressos internacionais. Todavia, questionamos: qual será o futuro destes projetos? Convocando o poeta Fernando Pessoa, “só a arte é útil. Crenças, exércitos, impérios, atitudes – tudo isso passa. Só a arte fica, por isso só a arte se vê, porque dura”. As nossas crianças e jovens precisam de ter conhecimentos e capacidades transversais, considerando o futuro incerto e altamente competitivo, mas, e acima de tudo, precisam SER FELIZES, sonhar e acreditar num Mundo melhor para todos. “A arte faz a vida, o interesse, a importância; não conheço nenhum substituto que tenha a força e a beleza deste processo”. Henry James. A todos desejamos um próspero ano letivo!
Carlos Gonçalves Investigador Integrado do INET-md (FCSH/UNL) – Polo no IPP (CIPEM)