Perante a soberania do voto, a cultura cidadã da negociação deveria ser normal, numa democracia adulta. Trata-se da gestão da coisa pública, do cuidar da comunidade, a cuja governação todos são chamados a assumir responsabilidades. Seria assim num mundo ideal. Onde houvesse menos fracturas ideológicas, menos picardia, ressabiamento e mesquinhez no debate político, dominado as mais das vezes pela rasteira argumentação trauliteira, quase roçando o insulto pessoal, e se verificasse maior elevação na discussão de ideias, maior mobilização face à necessidade de coesão social, melhor postura de Estado dos líderes políticos, a chave do desenvolvimento da democracia e do estado de direito. Em suma, maior cultura democrática. Que é mais fácil governar com maiorias absolutas é evidente. Mas também se sabe da cultura da arrogância associada por arrasto. Não é gratuita a comparação com ditadura sufragada. Sabe-se do faz de conta dos debates parlamentares, das auscultações formais dos parceiros sociais, para salvar as aparências e cumprir calendário, e de como a decisão final não altera uma vírgula ao projeto inicial, e faz absoluta tábua rasa dos contributos recebidos. E claro que habituados a este proceder, será difícil encontrar a humildade para sentar-se à mesa com opositores e chegar a consensos. É, todavia, o futuro do país, e das estruturas partidárias envolvidas, que se joga. Saibam os seus atores estar à altura do desafio. Poderia ser uma oportunidade de aprender a partilhar a responsabilidade do poder… e crescer em cidadania democrática. Claro, num mundo ideal! Inevitável uma referência ao ruído da campanha eleitoral e ao apelo ao voto útil, face ao aparecimento de tantas propostas políticas. Todos os votos expressos são úteis. Representam vontade política, escolhas a respeitar. Aos partidos que querem ser ganhadores exige-se que convençam os potenciais eleitores com argumentos válidos sobre as suas propostas, entendidas pelos cidadãos como projetos credíveis. Em vez de desvalorizar os projetos novos, deveriam ter trazido à liça as questões transversais que apoquentam a generalidade dos cidadãos, independentemente de lateralidades ideológicas e cromatismos partidários: as funções do Estado; a destruição de direitos sociais; o empobrecimento das populações por via da desvalorização do mercado de trabalho; o conceito de lucro; a amplitude salarial nas organizações e empresas; o exemplo da Volkswagen e a noção de responsabilidade ética do grande capital; a falta de perspetivas e esperança para os jovens; a demografia e a interioridade; a destruição do Estado Social e do acesso a direitos básicos de cidadania, à saúde, à educação e à segurança social… É preciso que o novo quadro legislativo discuta isto! O tempo será por certo de refletir a sério sobre democracia, solidariedade, tolerância, justiça e paz. O lugar de todos na cidadania planetária. Porque há assuntos a que não podemos fugir. A situação dos refugiados e as reações contra a sua entrada, inaceitáveis, a um continente subscritor dos princípios universais da dignidade humana, impõe-se a qualquer consciência… É inquietante ver como os fantasmas da desconfiança, do medo, do ódio ao outro, que julgávamos resolvidos por uma cultura de democracia e paz, regressam e alastram por entre grupos sociais que se julgaria insuspeitos. Perturbante a reedificação de muralhas, em países por tantas décadas forçados à clausura por detrás da cortina de ferro… Como entender esta nostalgia do arame farpado, quando tanto se lutou pela livre circulação de pessoas e se pagou com a vida o desejo de liberdade? Chocam o discurso inflamado do “nós” e “eles”, as generalizações abusivas, a divulgação de imagens e atitudes descontextualizadas. Na era das redes sociais, é tão fácil manipular mensagens, distorcer realidades, condicionar consciências… O “nós” e “eles” não têm lugar no mundo da globalização da economia, da liberdade comercial e dos mercados financeiros. A luta pela vida está para além do passaporte. Envergonham, a inoperância e a incompetência de responsáveis políticos europeus, a ausência de respostas a esta questão complexa. A intervenção deveria já ter ocorrido desde a primeira hora do conflito, quer na organização e controlo da ajuda a estas populações desesperadas, quer na implicação internacional na origem do problema, em vez de se queimar tempo precioso em inúteis reuniões e cimeiras, com olho calculista nas agendas domésticas. Num mundo de interdependências, os conflitos dos outros acabam por chegar até nós, em ondas de choque inevitáveis... E não há só refugiados de guerra; há os refugiados do clima, as vítimas de grandes cataclismos naturais que precisarão sempre de auxílio e amparo. O mundo é de todos e todos são do mundo.

Júlia Caré