Em Janeiro último, Miguel Albuquerque considerava fundamental para o PSD-M criar um Gabinete de Estudos “aberto à participação dos militantes, simpatizantes e personalidades convidadas da política, do meio académico, cultural e empresarial, devendo esta estrutura trabalhar em rede, em áreas comuns, com outras instituições, fundações e associações nacionais e internacionais”.

Um mês depois da criação, Sérgio Marques, que foi convidado pelo presidente do partido para liderar esta estrutura, reunia pela primeira vez os 25 elementos do GERE e definia como um dos principais objectivos “ajudar o partido a pensar, a reflectir, a criar, a ser mais inovador nas soluções que deve apresentar”. O maior trabalho, admitia na altura, seria depois das eleições de Março. “Contribuir para um novo paradigma de desenvolvimento económico e social” e para a “reforma do sistema político” eram os propósitos.

As eleições renderam uma maioria absoluta, uns lugares confortáveis e depressa o Gabinete foi transformado em conversas vespertinas na Avenida Zarco. A exemplo de muitos outros fenómenos criados na social-democracia madeirense, garantiu um lugar na Comissão Política, mas nada produziu. Tanto assim foi que, a 13 de Julho, escrevi nestes poios: “Que é feito do gabinete de estudos do PSD-M que diziam ter tanta gente com competência técnica e visão estratégica? Foi calado, já deu o que tinha a dar, ou seja, governantes e adjuntos, deputados e candidatos, ou é só para ser reactivado após a primeira demissão governativa?”.

Manuel Brito deixa a Saúde a 1 de Agosto, mas nem por isso o depauperado Gabinete sai do coma induzido. E na altura já havia danos a merecer intervenção cirúrgica urgente. Os recuos no dossier ‘JM’ causaram engulhos. Nada que o aparato em torno de maior abertura às comunidades não ajudasse a disfarçar. Seguiram-se os cortes nos apoios às rádios locais, os remendos na estrada da Fajã de Ovelha, a requalificação da escola do Porto Santo que afinal será nova e a ineficácia do gabinete de estudos.

Sérgio Marques foi desde o início a grande surpresa do governo e do partido. Por ter sido o número dois numa hierarquia em que Pedro Calado chegou a ser dado como inquestionável. Por ter ficado com a coordenação política de um executivo sem experiência. Por ter sido o primeiro a não honrar promessas eleitorais. Por desiludir. Nunca 300 militantes valeram tanto. E seis meses depois, o resultado é eloquente.

Temos dado notícia da aselhice constante. Daí que alguns prefiram insultar o “pulha do director” do DIÁRIO do que honrar os compromissos que assumiram. Nem todos temos estudos ao nível da malta do Gabinete mas sabemos que não é relegando para segundo plano os mais capazes que a meritocracia se instala, que não é dispensando os visionários que se legitimam fantochadas, que não é na adega que se faz vinho! Um mandato vive de obras e um Presidente de inaugurações. Mesmo em tempo de vacas magras, não são os olhos azuis que ganham eleições. São os favores e as cunhas que a família social-democrata instituiu e dos quais ainda é refém.

Não estou à espera de desculpas por parte de quem o poder foi oferecido à conta de estatutos que não resultam do sufrágio livre. Nunca 300 valeram tão pouco. Só que enquanto este “pulha” dá a cara, os honestos e íntegros refugiam-se no anonimato cobarde.

Chamem-me o que bem entenderem. Não vos devo nada. Não dependo dos epítetos fabricados em gabinetes que patrocinam o assassinato público e praticam a exclusão. Não me comovo com a imbecilidade. Apenas julgava que este expediente execrável estava enterrado. Enganei-me. Comprovadamente, o pior do jardinismo não foi reconvertido, renovado, depurado. Está vivo. Viu-se num relaxado direito de resposta contra o DIÁRIO. Vê-se nas contradições entre dois colegas de governo. Vê-se na inabilidade das respostas dadas por gabinetes governativos a assuntos de índole partidária. Vê-se na falta de tacto político.

Vê-se no reparo público que ganha forma a cada dia que passa. Ainda anteontem, no DIÁRIO, Carlos Vares diagnosticou o provável naufrágio num PSD que perde votos continuamente: “Numa altura em que os melhores não marcam presença e a abertura à sociedade civil é inexistente no órgão do PSD vocacionado para isso, o conforto para decisões difíceis, fruto de uma leitura da sociedade, das necessidades e de uma vaga concordante é escassa. As discussões estarão nas páginas dos jornais ou na casa da democracia. A maioria parou para ver e o PSD, executivo ou não, acantonou-se. O PSD não sabe envolver a sociedade nos assuntos quentes e é surpreendido”.

E vê-se na mentira. O Gabinete de Estudos do PSD não tem reunido, não tem sido eficaz e pior, quem dele mais precisa, não tem recorrido à sabedoria de alguns dos seus membros porque prefere ouvir os que se perdem em elogios e não os que questionam, porque se esmorece com a ficção e tem pavor da realidade.