Enquanto deambulava pelo aeroporto de Istambul, já era visível que ali residia um cruzamento de raças e credos, ponto de convergência e separação entre o mundo cristão e muçulmano. Mas foi quando, perdido a olhar para o horizonte, despertei e vi-me rodeado por meia dúzia de muçulmanos que, diligentemente, faziam as suas preces, que dei-me conta da eminente entrada numa outra realidade. Chegamos muito tarde a Mascate, capital de Omã, com três milhões de almas, onde Portugal teve forte influência, tendo inclusivamente ocupado este território durante 143 anos, desde 1507. Mas o calor e a humidade ainda eram sufocantes, o que, naturalmente, contrastava gritantemente com qualquer ambiente fechado, onde o ar condicionado impunha as suas regras. Tira a camisola, veste a camisola, tira a camisola, transpira, arrepio na pele, veste a camisola de novo. É assim neste país, onde a energia parece não custar. A caminho de Mussanah, nosso destino final, percorremos aquelas linhas de luz, tão visíveis do avião, insinuando-se ao longo do deserto, desafiando-o. Nunca havia percorrido tantos quilómetros, tão bem iluminados, ladeados sempre por muros e, depois dos muros, palmeiras. “Esta é a residência da família real”, dizia-nos o condutor. Muros de pedra clara, palmeiras. “Esta é a residência do Rei!” Mais muros, quilómetros de muros, palmeiras, aguçando a curiosidade, alimentando a imaginação. E depois, no meio do nada, um resort, sugestivamente chamado “Millennium Sporting City”. A norte, um mar azul que se funde com o horizonte numa neblina espessa. Em todas as outras direcções, alguns edifícios baixos, palmeiras aqui e ali e, depois, sempre aquela cor de areia omnipresente, lembrando-nos constantemente que este é o seu território. Não posso abrir as janelas do meu quarto, de onde, diga-se, só se vê azul, em frente e para cima. Comecei por perceber porquê, nem dez minutos depois. Primeiro, foi o espelho ao meu lado. Depois, o ecrã escuro da televisão. Finalmente, o chão. Tudo coberto com uma película de humidade pegajosa, trazida pela maresia, que a diferença térmica trouxe a descoberto. 42ºC lá fora, humidade a rondar os 80% e água a 30ºC. Aparentemente, não vou precisar de usar fato de neoprene. Nas próximas duas semanas, esta será a minha casa. E a de mais duzentos velejadores, que se juntaram aqui, no meio do deserto, todos com o mesmo sonho: os Jogos Olímpicos.

João Rodrigues Velejador olímpico