Continuamos a assistir a esta espécie de “colapso” das democracias europeias perante a emergência dos movimentos de migrantes que surgem pela radical falta de liberdade, de respeito pela dignidade humana, cujas consequências são agora indisfarçáveis e claras à vista da opinião pública. O desmoronar de uma esperança, resultado de muitas promessas não cumpridas, tinha de forçosamente trazer consigo uma enorme desilusão sobre este sistema e a aceitação de novas formas de construção do mundo e a definição de novos caminhos orientadores da vida. Assim, neste momento de perplexidade emerge, muitas vezes, um cenário de total relativismo, que se tornou, de facto, um dos problemas centrais do nosso tempo. Este não surge apenas, pela negativa, como resignação perante a força e a grandeza da verdade. Pode igualmente definir-se pela positiva, através dos conceitos de tolerância, de reconhecimento da alteridade, de diálogo e de uma liberdade que seria limitada pela afirmação de uma verdade única e válida para todos. Se vivemos numa sociedade democrática, é porque temos como um dos alicerces o princípio de que a ninguém é lícito reclamar o conhecimento exclusivo do caminho certo. Vivemos todos os dias a experiência democrática que assume que os diferentes caminhos se procuram constituir e reconhecer como fragmentos de um esforço por encontrar o que é melhor, procurando, todos eles, construir uma comunidade em diálogo. Deste modo, a construção da vida em comum das pessoas, ordenada em liberdade, não pode ser absoluta. Deve ser, naturalmente, um sistema de posições relativas que encontram algum entendimento e que, além disso, dependem de contextos históricos e têm de estar abertas a novos desenvolvimentos. Porém, que fique claro, o relativismo total não traz qualquer solução e quer impor-se sem referenciais e sem limites, mas todos nós sabemos que existe a injustiça, que nunca pode ser justiça (ex: negar a pessoas e a grupos o direito à sua dignidade humana e a condições de vida condizentes, matar inocentes, instrumentalizar as pessoas) e existe a justiça que nunca pode ser transformada em injustiça. No atual contexto de um mundo em rápida e imprevisível mudança, de um encontro de culturas, o relativismo parece ganhar um evidente poder de sedução e de imposição, sendo difícil, em muitas circunstâncias, fazer-lhe frente e resistir-lhe. Quem mostra resistência e se lhe opõe, persiste, de forma profundamente obstinada, na afirmação da democracia, da tolerância, condições fundamentais da convivência e da realização humanas, e do diálogo e do convívio das culturas, sem a pretensão de afirmar a primazia absoluta e dominante da sua própria cultura e a obrigatoriedade do seu seguimento. Fica-nos a convicção de que o que melhor serve a realização da natureza humana não é, certamente, o relativismo que segue e dirige-se diretamente para aquilo que não é vinculativo, tornando-se assim inútil e incapaz de responder às exigências do conhecimento da realidade que o rodeia. Temos de seguir o caminho da liberdade e da tolerância, como pano de fundo para o acesso à harmonia do próprio eu, à plenitude da pessoa, à abertura aos outros, ao equilíbrio com a natureza e ao êxtase de viver, nem que seja por um momento, o gozo do infinito.

Marco Gomes